Caminhos que levam à música de qualidade

Por Carlos Bozzo Junior
A cantora Sandra Fidalgo e o músico Toninho Ferragutti, no ensaio, na sua casa do acordeonista, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A cantora Sandra Fidalgo e o músico Toninho Ferragutti, ensaiando na casa do acordeonista, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Os caminhos musicais do acordeonista e compositor brasileiro Toninho Ferragutti se cruzam com os traçados pela cantora e compositora portuguesa Sandra Fidalgo, em show, hoje, às 21h, na Central das Artes, em São Paulo.

O Música em Letras esteve no ensaio da dupla e constatou, além de muita musicalidade, um raro e feliz entrosamento entre ambos.

Leia, a seguir, como esses excelentes e dedicados artistas se conheceram e surpreenda-se, por meio dos vídeos no fim da matéria, como será este show que se propõe a ser uma viagem multicultural.

LISBOA – SOROCABA

Sandra Fidalgo, 47, percorre seus caminhos musicais desde os 13 anos, quando ganhou um violão das mãos de um amigo de seu pai. Yaúca, seu pai, era um angolano que ficou famoso jogando futebol e marcou muitos gols para vários times de Portugal e sua seleção nos anos 1960. Contudo, para a filha, seus “gols de placa” foram marcados quando retornava de suas viagens ao Brasil, trazendo na bagagem discos de vinil de Tom Jobim (1927-1994), Luiz Gonzaga (1912-1989), Dominguinhos (1941-2013) e Elis Regina (1945-1982), entre outros. “ Ele me mostrou tudo de bom que havia de música no Brasil”, disse Fidalgo.

A mãe, portuguesa, teve mais uma filha, também cantora. Foi ela quem inspirou e compartilhou seus conhecimentos musicais com a caçula Sandra, criança tímida e reservada, que utilizava a música para expressar seus sentimentos.

Praticamente autodidata, Fidalgo não toca músicas de outros compositores. “ Sei tocar só para compor”, disse a artista que ainda jovem enveredou por trilhas que a levaram a influências musicais obtidas, além da MPB, na música clássica, popular portuguesa, e no jazz. Já reconhecida como cantora e compositora, participou da cena artística portuguesa ao lado de nomes fortes como Paulo de Carvalho, 68; Sérgio Godinho, 70; Jorge Palma, 65; e Rui Veloso, 58, todos músicos e compositores consagrados. “ Mais do que livros, fui influenciada por mensagens de canções desses artistas, em especial de Zeca Afonso (1929-1987), que admiro muito”, completou Fidalgo.

Há cerca de um ano e meio, a cantora mudou-se de Lisboa para Sorocaba, interior de São Paulo. “ O trabalho de meu marido nos trouxe a Sorocaba”, explicou a cantora que se apresenta regularmente na cidade.

BEM DE MADRINHA

“Amadrinhada” pela cantora Rosa Passos, Fidalgo já dividiu o palco cinco vezes com a célebre artista. “ A Rosa me ‘amadrinhou’ e me convidou para participar de seus shows, depois de ter escutado meu último CD”, contou a compositora referindo-se ao disco “Agora” (2014), que traz 12 faixas de sua autoria. “ Este é dos meus trabalhos o que mais me identifica. Está mais perto daquilo que realmente quero fazer.”

Os discos de Fidalgo são todos independentes. O primeiro é “Diário Azul” (2006), com 14 músicas, com letras e músicas de sua autoria revelando uma espécie de diário da artista. “ Não tenho arrependimento nenhum deste trabalho, mas olho para ele e vejo ser próprio daquela época. Hoje, não faria daquela forma, pois houve uma evolução”, comentou a artista.

“Natural” (2008) tem 11 músicas que nadam nas águas do pop. “ Esse disco tem relação com o que eu estava a viver na época”, falou.

A cantora Sandra Fidalgo e o compositor Toninho Ferragutti, que tocam, hoje, na Central das Artes, em são Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A cantora Sandra Fidalgo e o compositor Toninho Ferragutti, que tocam, hoje, na Central das Artes, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ENCONTRO PORTUGAL- BRASIL

Fidalgo conheceu Ferragutti assistindo-o em um show em homenagem a Dominguinhos. “ Sempre fui apaixonada por Piazzolla (1921-1992). Ao assistir Ferragutti, percebi que ele estava na mesma linha que o Piazzolla, ligados pela emoção, criatividade e em termos de composição, sem falar da parte técnica”, disse a cantora que, após adquirir o CD “Sorriso da Manú” (2012) de Ferragutti, compreendeu melhor a grandeza deste músico e compositor espetacular.

Depois disso, Fidalgo entrou em contato com o acordeonista que a convidou para se conhecerem e tomarem um café em sua casa. A cantora foi. E a capela, na cozinha do músico, mandou entre outras “Saudades do Brasil em Portugal”, fado que Vinicius de Moraes (1913-1980) compôs para a cantora Amália Rodrigues (1920-1999) e “chapou” os ouvidos do acordeonista, que surpreendido com o timbre e musicalidade de Fidalgo, comentou: “ Não nasci ontem, né? Na hora em que ela cantou pensei: Que voz é essa?”

Assim, do sanfoneiro partiu o convite de trabalharem juntos.

SHOW

Segundo a cantora, caminho é o que traçamos todos os dias em nossas vidas. Agora, ela e Ferragutti estão a construir um caminho musical. “ De meu encontro com o Toninho, percebemos que viemos de caminhos diferentes. Agora estamos a construir o nosso próprio caminho. Tudo através da música.”

No show, entre outras músicas, a cantora deve interpretar “Essência”, de seu último disco, que questiona quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos. “Vitória”, uma valsa de Ferragutti em homenagem a sua mãe, também está garantida no repertório. A música faz parte do primeiro CD do acordeonista “Sanfonema” (2000).

DUO

Fidalgo não é adepta de nenhuma seita ou religião, mas revela mentalizar um pensamento sempre antes de cantar. “ Penso e digo para mim: sou o amor. Quando canto expresso o amor. Tudo à minha volta é amor. Dou e recebo amor.”

Para Ferragutti, 56, trabalhar em duo, embora seja mais difícil, é uma de suas formações prediletas. “ Em duo todos os fundamentos se reúnem. Harmonia, melodia, dinâmica e a levada rítmica são trabalhadas em música de câmara em duo com muito mais afinco, porque você fica muito mais exposto. Eu me sinto muito mais completo nessa formação, principalmente nas vezes em que dá certo”, disse rindo o músico acostumado a essa formação iniciada com seu pai (sax) e depois realizada em gravações com o saxofonista Roberto Sion, no CD “Oferenda” (1999); com o violeiro Neymar Dias, no CD “Festa na Roça” (2013); com o acordeonista Bebê Kramer, no CD “Como Manda o Figurino” (2011); com o violonista Marco Pereira, no CD “Comum de Dois” (2014) e com a cantora Mônica Salmaso, a única, infelizmente, sem registro.

Assista aos vídeos e perceba como caminhos diferentes traçados por esses dois cidadãos do mundo podem levar ao mesmo destino, o da música de qualidade.

“Caminho”, de Sandra Fidalgo

“Na Volta Que O Mundo Dá”, de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro

Conheça também a mais nova música, de Ferragutti, um baião ainda sem nome, mas que poderia ser batizada como “Egbertiniana”, por remeter, com os vocalizes de Fidalgo, aos temas de Egberto Gismonti.

SHOW Sandra Fidalgo e Toninho Ferragutti
ONDE Central das Artes, r. Apinagés, n° 1081, São Paulo, tel. 3865-4165
QUANDO Hoje, 5 de novembro, quinta-feira, às 21h
QUANTO R$ 20