Vanessa Bumagny mergulha em busca de suas próprias pérolas

Por Carlos Bozzo Junior
A cantora e compositora Vanessa Bumagny, em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A cantora e compositora Vanessa Bumagny, em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A cantora e compositora Vanessa Bumagny (pronuncia-se bumagini), 44, apresenta Mergulho, show que conta com quatro apresentações e participações especiais. As apresentações acontecem às quartas-feiras, a partir de hoje (21), na SP Escola de Teatro, na praça Roosevelt, 210, em São Paulo. O mergulho de Bumagny é em busca do repertório para seu primeiro DVD. Para isso, a cantora apresenta músicas de seus três CDs “De Papel” (2003), “Pétala por Pétala” (2009) e o último “O Segundo Sexo” (2014).

O Música em Letras esteve com a artista e a entrevistou para saber mais sobre essas apresentações e sua carreira. Leia a seguir e veja vídeo no final da matéria.

PRIMEIROS COMPASSOS

Filha de um economista e uma professora, ambos aposentados, Bumagny se descobriu na música, ainda jovem, durante um programa de intercâmbio nos Estados Unidos. A moça tinha 17 anos quando fazia parte de um coral na escola norte-america, cantando Mozart e spirituals, e teve seu momento de epifania ao descobrir que cantar era o que queria fazer pelo resto de sua vida. “Fiquei superfeliz porque o maestro do coral falava que eu podia cantar tanto como soprano, como contralto. Nunca gostei de acordar cedo, mas para cantar sim. As aulas eram durante o inverno, bem cedo, e eu amava acordar, pegar a bicicleta e pedalar até a escola para cantar”, disse a cantora que é soprano.

Bumagny voltou para o Brasil, fez cursinho, entrou na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) para cursar cinema, mas não levou o curso adiante, pois a ideia de cantar a perseguia.

Em 1991, montou o grupo de forró Segura Essa, para realizar sua vontade maior. Na época, havia poucos lugares na cidade para se apresentarem. “Era uma coisa esquisitíssima porque eu achava sanfoneiro para tocar na banda só no Andrade (restaurante nordestino) ou em cantinas italianas do Bexiga. O forró era discriminado. Depois, fui morar na Espanha e meus amigos escreviam dizendo que eu estava à frente de meu tempo, porque o forró virou o maior sucesso na cidade e surgiram vários lugares para tocar este gênero.”

Antes de mudar para a Espanha, em 1995, Bumagny fez shows baseados no repertório de Dalva de Oliveira (1917-1972), cantando entre outras “Errei Sim”, “Zum Zum” e “Poeira do Chão”. Ainda nesse período a artista foi backing vocal da banda de salsa Som Caribe, que tinha como pianista o talentoso Edsel Gomez. Na sequência, conheceu o cantor e compositor Chico César, em um show da cantora Virgínia Rosa, e virou backing da banda do paraibano.

Bumagny seguiu para a Espanha, levada pelas mãos e pelo coração de um namorado. Lá morou em Barcelona. Levou um ano para fazer o primeiro show. Em meio a tantas casas da cidade que abrigavam jazz, Bumagny era aconselhada a se apresentar em uma em que houvesse samba. Não aceitou o conselho, pois apesar de curtir o gênero não era o que queria e passou a cantar em conjuntos de baile para se sustentar. “Cantei até ‘Macarena’, mas tinha muita coisa boa de salsa”, disse a cantora que permaneceu quatro anos no país.

Enquanto morava na Espanha, passou a compor e hoje amealha nomes fortes ao seu lado. Entre eles, o de Luiz Tati, com quem compôs “Do Meu Jeito”, Zeca Baleiro, parceiro em “Ciúme Não Mata” e Chico César, que com a artista fez “Pétala por Pétala”.

A compositora Vanessa Bumagny, que estreia temporada de shows (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A compositora Vanessa Bumagny, que estreia temporada de shows (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CDS

O primeiro CD de Bumagny é “De Papel” (2003), em que 14 faixas apresentam uma sonoridade eclética. Entre as canções, “Flor da Idade”, de Chico Buarque, e “Radiografia”, de Bumagny, mas que muita gente pensa ser de Zeca Baleiro. “Ele me disse que sempre pedem para ele cantar essa música pensando que é dele”, contou a compositora.

Seis anos depois, a artista lançou seu segundo CD, com 12 faixas, o intimista “Pétala por Pétala” (2009), mesmo nome da música que Bumagny compôs com Chico César. “Linha de Fogo” é outra música que chama muito a atenção no disco, com a participação especial de Dominguinhos (1941-2013), cantando e tocando. “Ela é muito especial. Posso estar em meio a uma bagunça, uma festa em que ninguém está me ouvindo, mas quando começo a cantar essa música, todos param e a escutam. Ela tem uma aura capaz disso”, falou a cantora.

Reggae e eletrônico são alguns gêneros presentes no terceiro CD, “O Segundo Sexo” (2014), com 11 faixas. O disco foi realizado depois de a artista ler o livro homônimo de Simone de Beauvoir (1908-1986). “Ao ler este livro, entendi de onde minhas músicas vinham, mesmo as compostas anteriormente. Percebi que eu era aquele ser que ela descrevia e o porquê de eu fazer minhas músicas”, disse. Entre as músicas do CD, há uma balada bem romântica com apenas violão e voz, “Evapora”, dela e Zeca Baleiro, produzida pelo guitarrista de Baleiro, Tuco Marcondes.

TEATRO

Bumagny é conhecida por sua capacidade de unir a linguagem musical à teatral. A artista estudou teatro na escola de Célia Helena (1936-1987). “Tive aulas de interpretação com ela, mas depois de um ano e meio resolvi sair porque me repetiram de semestre por mau comportamento e falta de disciplina. Eu faltava muito aos ensaios, mas era porque já cantava e tinha shows para fazer e não podia comparecer”, disse a atriz que em seguida passou a trabalhar com o diretor Zé Celso Martinez.

“Era muito visceral. Em um momento o Zé Celso perguntou quem queria ser ‘puta’ e quem queria ser ‘santa’. Como 80% das mulheres queriam ser ‘puta’, eu quis ser ‘santa’ só para ser do contra. Só que era uma bosta ser ‘santa’. Ele não as olhava e nem as dirigia. Ele não estava nem aí para as ‘santas’. Fui pedir para ser ‘puta’ e ele não deixou. Um dia quero voltar a trabalhar com ele, mas tem que ser ‘puta’, senão não tem graça nenhuma”, revelou a atriz que também participou do projeto De Profundis, com o grupo Os Satyros, substituindo a cantora Adriana Capparelli.

A atriz, compositora e cantora Vanessa Bumagny (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A atriz, compositora e cantora Vanessa Bumagny (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SHOW

No show de hoje (21), além de Bumagny, participa, a convite da cantora, a dupla formada pelo pianista Luis Felipe Gama e Ana Luiza, protagonista do CD “Vermelho”, disco forte e intenso como a cor que o nomeia. Acompanhando a artista, estarão Adriano Magoo, no piano elétrico, e Henrique Alves, no contrabaixo.

Contudo, os convidados não realizarão uma participação especial de praxe. “Quero que eles cantem minhas músicas para eu assistir. Esta é uma forma de eu entender melhor meu próprio repertório”, disse a cantora que no momento da apresentação estará na platéia. Para os outros shows, já estão confirmadas as participações de Jurema Paes, Beto Villares e, no último dia (11/11), das cantoras Susana Travassos e Alzira E.

Como a franqueza não consiste em se dizer tudo o que se pensa, mas em se pensar tudo o que se diz, a artista disse: “Quero tocar as pessoas com minhas músicas. Este sempre foi o meu objetivo. Se nesse show elas não se emocionarem, garanto o dinheiro do ingresso de volta”.

Assista ao vídeo de Vanessa Bumagny, cantando um trecho de “Pétala por Pétala”, música dela e Chico César.

ARTISTA Vanessa Bumagny

SHOW Mergulho

QUANDO de hoje (21/10) a 11/11, às 21h

ONDE SP Escola de Teatro, praça Franklin Roosevelt, 210, Centro, São Paulo, tel: (11) 3775-8600

QUANTO R$ 30,00 e R$ 15,00