Marcelo Mariano mostra em show ser filho legítimo da música

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Marcelo Mariano, em seu estúdio, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo junior)
O músico Marcelo Mariano, em seu estúdio, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo junior)

Em 1967, o pianista, compositor, arranjador, maestro e produtor Cesar Camargo Mariano escreveu seus primeiros arranjos para uma orquestra completa. Eles estão no álbum “Marisa”, da cantora Marisa Vertullo Brandão, conhecida por Marisa Gata Mansa (1938-2003) por sua maneira suave de cantar. Entre as músicas do disco, figura “Marisa”, composta pelo maestro para tocar no casamento de ambos. No mesmo ano, nascia em São Paulo o baixista, compositor, arranjador e produtor Marcelo Mariano, fruto da relação do pianista com a cantora.

Marcelo tinha apenas três anos quando seus pais se separaram. Junto com a mãe foi morar no Rio de Janeiro, onde permaneceu por quase 40 anos antes de mudar-se para São Paulo, cidade na qual reside há oito anos.

O Música em Letras esteve no estúdio de Marcelo Mariano, 48, no bairro da Lapa, em São Paulo, para uma conversa regada a café e muito som (veja vídeo no final do texto). No local, apurou o que vai acontecer no show que o baixista realiza amanhã (9), sexta-feira, em São Paulo, ao lado de seu quinteto e de Silvera (vocal) e Daniel D’Alcântara (trompete e flugelhorn). Em sua banda, Mariano conta com músicos excelentes: Danilo Santana (teclados), Cuca Teixeira (bateria), Webster Santos (guitarra e violão) e Marcelo Freitas (saxofones).

MÚSICO PRECOCE

Mariano é autodidata. Começou a tocar contrabaixo precocemente, em 1981, ainda com 14 anos, acompanhando a mãe. A primeira vez que “atacou” com ela foi para substituir um baixista que acabou por “perder a boca”. O pimpolho, que antes do instrumento de cordas tocava os de percussão, já apresentava destreza e musicalidade. Segundo Mariano, sua mãe estava para cancelar um show, quando soube que o baixista que tocava com ela havia “mandado o Lima” (não compareceria). “Ela ficou muito chateada e para acalmá-la sugeri que tocássemos juntos. Se ela achasse legal, eu iria no lugar do cara”, contou o músico que marejou os olhos de sua progenitora e foi rapidamente adotado pelo grupo que acompanhava a mãe.

Daquela ocasião aos dias de hoje, Mariano é muito requisitado para produzir, tocar e gravar ao lado de inúmeros artistas. Entre eles, Lenine, Gal Costa e Djavan, com quem deve se juntar, após o show de São Paulo, para ensaiar as músicas do próximo disco do alagoano, no Rio.

Das produções de Mariano, destaca-se o excelente disco da cantora Tatiana Parra, “Inteira”, com participações do trio argentino Aca Seca e do pai César Camargo Mariano. O CD traz músicas de novos compositores da cena paulistana como Pedro Viáfora, Pedro Altério e Dani Black. Mariano também foi produtor do primeiro disco de Dani Black, filho de Arnaldo Black e Tetê Espíndola.

O compositor Marcelo Mariano, tomando café, em seu estúdio (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor Marcelo Mariano tomando café, em seu estúdio (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SHOW

Depois de acompanhar a cantora e compositora Diane Reeves, Mariano desenvolveu uma amizade e admiração pela norte-americana, que será homenageada no show com a música “Mista” (gíria da palavra “mister”), música composta por ela e Terri Lyne Carrington para o disco “Bridges” (1999). “É um groove que uso para coroar a noite”, falou o baixista.

No espetáculo, Mariano mostra ainda músicas autorais compostas para o seu primeiro CD, ainda a ser gravado, e temas de outros compositores consagrados como “Naima”, escrito pelo saxofonista John Coltrane (1926-1967), em homenagem a Juanita Naima Grubbs, com quem foi casado entre 1955 a 1966. Além de ser uma balada indiscutivelmente linda, dissonante, e de Coltrane tê-la registrado tocando-a de maneira sublime, Mariano foi seduzido pela música após ter feito uma temporada com o saxofonista Paulo Moura (1932-2010), no bar Conversa Fiada, em Ipanema, no Rio. “É uma homenagem ao maestro Paulo Moura, que faço com uma batida afro.”

Das músicas autorais, destaca-se “Bossa”, composta em 2003, um mantra de um ciclo harmônico que mistura o experimental, instrumental com pop para exprimir a tristeza do ser sozinho. “Nesta música, alguns elementos vão surgindo aos poucos. Começa com uma melodia superdoce, passo por uma pulsação rítmica, improvisos, frases e uma harmonia mais crescida, indo para os agudos até atingir seu máximo, no final. É como se fosse uma coisa progressiva”, disse o músico que sempre gostou muito do rock pop inglês, como os dos grupos Yes e Genesis.

Já “Recife” é uma mistura de toada soft e abolerada que parece ser um baião para homenagear a cidade que Mariano tanto admira. “Essa música poderia ser uma composição do Lenine feita para a Nana cantar, com uma harmonia voltada para o lado mineiro”, falou. Prima de “Recife”, “Mãe” é outra toada baião que será apresentada no show.

O arranjador e produtor Marcelo Mariano (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O arranjador e produtor Marcelo Mariano (Foto: Carlos Bozzo Junior)

BAIXISTA DA POESIA

Marcelo começou a tocar música popular brasileira de qualidade, antes de enveredar pelo pop ou rock. Ainda jovem, interpretava, entre outras, partituras das músicas de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), escritas pelo maestro Gaya (1921-1987). Isso já faz com que sua sonoridade seja diferente da maioria dos baixistas, por valorizar bastante a harmonia e a poesia desse tipo de música. Econômico ao emitir notas, Mariano contrapõe a melodia ao invés de contrapor a levada da bateria ou de um teclado e guitarra. Isso faz com que ele ganhe uma via onde trafega só e fortalece sua identidade sonora. Em outras palavras, o artista acompanha a poesia. A canção parece estimulá-lo mais que a música puramente instrumental.

“Aprendi a tocar com o intérprete. Meu foco é sempre servir a melodia, que busca um caminho e não pode ser abandonada em momento algum. Para que não seja apenas um baixo pulsando, cuido do meu acabamento para cada passada de nota fazer sentido junto à melodia”, disse o músico que tem seu som baseado na arte dos melhores baixistas brasileiros que apresentam a mesma característica. Entre eles, Sisão Machado, Luizão Maia (1949-2005), Artur Maia e o gênio Nico Assumpção (1954-2001), que inúmeras vezes esteve na casa de shows Jazzmania, no Rio, para apreciar Mariano tocar. “Eu abria e fechava os shows da casa. O Nico aparecia, ouvia e ligava para meu pai dizendo que o baixista dele estava ali”, disse Mariano, acrescentando que outros artistas como Leny Andrade, Paulo Braga, Emilio Santiago (1946-2013), sempre disseram para Cesar Camargo Mariano que seu filho deveria tocar com ele. Foi o que mais tarde veio a ocorrer e rola até hoje.

Quem for ao show poderá entender o porquê de Marcelo Mariano sempre ser chamado por tantos artistas de primeiro time. Descobrirá, ainda, a elegante arte de não se fazer notar deste talentoso artista que faz parte de um vasto panorama musical onde ser diferente não é apenas tocar muito bem, mas tornar-se a própria música, sim.

Assista ao vídeo em que Marcelo Mariano toca, com exclusividade para o Música em Letras,“Esquinas” de Djavan.


SHOW Marcelo Mariano Quinteto
ONDE Central das Artes Rua Apinagés, 1081 – Sumaré, São Paulo – SP, 05017-000, tel. (11) 3865-4165
QUANDO 9 de outubro, sexta-feira, às 21h
QUANTO R$ 20