Lutheria de Murilo Ferreira está no sangue

Por Carlos Bozzo Junior
Murilo Ferreira, luthier de instrumentos de cordas (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Murilo Ferreira, luthier de instrumentos de cordas (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O luthier paulistano Murilo Ferreira é um dos mais requisitados profissionais da área. O artista fabrica, repara e faz manutenção de instrumentos de cordas (guitarras, violas, baixos e violões, entre outros) para músicos do rock, do jazz, da música caipira, do pop e da MPB, entre outros gêneros. Em meio a vários nomes que atende, figuram os de Andreas Kisser (guitarrista das bandas Sepultura, De La Tierra e Kisser Clan), Tom Zé, Supla, Badi Assad e Xororó, que “ataca” com Chitãozinho.

Entretanto, nem só famosos frequentam sua oficina. Anônimos e amantes também levam seus instrumentos ao artista. “Atendo a todos”, disse Ferreira em entrevista concedida ao Música em Letras, afirmando que quer desfazer esta imagem de ser luthier só de celebridades.

Leia, a seguir, trechos da entrevista e conheça um pouco da história do luthier, citado em uma novela da Globo e que embarca hoje (11) para os Estados Unidos. O motivo? Atender ao convite da fábrica de violões Taylor para aprender “o que quiser” dentro da área de produção.

QUATRO GERAÇÕES DE LUTHERIA

O começo de tudo foi em 1921, com Ulisses Ferreira, avô de Murilo, que além de ter trabalhado aprendendo o ofício de luthier em fábricas de instrumentos musicais brasileiras (Ao Rei dos Violões e Giannini), chegou a ter sua própria fábrica em 1956: a Atlas Instrumentos Musicais. O local abrigou anteriormente a fábrica de violões de Arnaldo Meireles. “Meu avô aproveitou uma estrutura já montada com varais para violão e um pequeno maquinário para construção deste instrumento e criou a Atlas”, contou Murilo.

Ulisses prosperou com o novo negócio e amealhou, entre vários clientes, os mais célebres nomes da música brasileira das décadas de 1950 a 1960, como, por exemplo, Silvio Caldas (1908-1998) e Inezita Barroso (1925-2015), além das duplas sertanejas Liu (1934-2012) & Léu, 78, e Cacique e Pajé. Para o baixista Lívio Benvenuti Júnior, o “Nenê” (1948-2013) do grupo Os Incríveis, o luthier Ulisses criou, nos anos 1960, segundo afirma seu neto Murilo, a primeira guitarra brasileira.

Por volta de 1965, a fábrica, que funcionava na rua dos Italianos, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, foi fechada, pois o sócio que Ulisses havia arrumado para cuidar da administração dos negócios perdera toda a grana da empresa nas patas de um cavalo. “O cara era viciado e perdeu tudo. Faliu meu avô que, como meu pai, só gostava de trabalhar na produção e não entendia nada de administração”, contou Murilo.

Contudo, o filho de Ulisses, Guaracy Ferreira, pai de Murilo, deu continuidade aos negócios montando uma oficina em Perdizes, bairro em que se estabeleceram há mais de 60 anos. Guaracy também atendia vários famosos. Entre tantos, o cantor Noite Ilustrada (1928-2003), de quem ficou muito amigo.

A oficina, hoje conhecida como Murilo Luthier, funciona sob o comando de Murilo pai, 49, com supervisão e ajuda de Murilo Filho, 26, a quarta geração ininterrupta de luthiers.

Murilo Pai e Murilo Filho, ambos luthiers (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Murilo Pai e Murilo Filho, ambos luthiers (Foto: Carlos Bozzo Junior)

OFICINA

No imóvel da rua Turiassu, adquirido por Murilo em 2007, houve uma reforma especialmente realizada para atender as funções de uma oficina de lutheria.

Na fachada da casa, um sobrado, não há placa ou letreiro indicando que ali funciona uma oficina de instrumentos. Segundo o luthier, embora possua um auto de licença de funcionamento, o lugar onde a oficina está localizada é uma área de tombamento. “Meu, há seis anos tento resolver isso. Já tive letreiro e tive que tirar, porque a multa é de R$10 mil. Acabei batendo boca tentando regulamentar isso porque parece que o bandido é você”, disse o artista que já procurou várias vezes o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) e a prefeitura da cidade, mas não consegue solucionar o problema.

Entretanto, a ausência da indicação do estabelecimento não impede que muitos cheguem ao local, que conta com uma sala destinada exclusivamente a atender o cliente e seu “enfermo” instrumentos. Em uma de suas paredes, há um painel de fotos, com artistas consagrados por suas músicas e que confiam nos serviços de Murilo pai e de Murilo filho. Entre eles, Tom Zé, Supla, Badi Assad, Xororó, Paulinho Nogueira (1929-2003) e Tavares da banda Fresno, para quem Murilo pai desenvolveu um contrabaixo com especificações feitas pelo instrumentista. Figura forte, que também está entre as fotos, é a de Andreas Rudolf  Kisser, 47, guitarrista, músico, cantor e compositor líder da banda Sepultura. Para ele, Murilo Ferreira criou uma guitarra semelhante à lendária “Red Special”, construída por Brian May, guitarrista do Queen.

O sertanejo Xororó, que faz dupla com Chitãozinho, foi agraciado pelo luthier com uma viola de 10 cordas feita exclusivamente para ele. “Só cobrei pelas peças. Há muito faço a manutenção dos instrumentos da dupla”, disse Ferreira que levou dois meses construindo a viola. O luthier produz apenas de quatro a cinco instrumentos por ano. “Não sou e nem quero ser fábrica”, disse o artista que realiza mais consertos com “s” de instrumentos do que os produz. “Aqui, cerca de 85% é manutenção. O conserto é muito forte na oficina.”

CURIOSIDADES

Um dia apareceu na oficina um sujeito com um violão totalmente detonado. O luthier espantado diante do estrago perguntou o que havia acontecido. O cliente explicou ser casado com uma mulher, mas tinha uma amante. A mulher odiava o violão, mas a amante adorava que ele o tocasse. Passado um tempo, o homem resolveu terminar com a amante e voltou para a mulher. Ao lembrar que havia deixado o violão na casa da amante, retornou para recuperá-lo. A amante, pensando que ele havia retornado para resgatar seu amor, ficou indignada quando soube que o real motivo era a recuperação do violão, e acabou por espatifá-lo. A resposta do luthier quanto à recuperação do  instrumento destroçado: “Esquece, não tem jeito. Moeu”.

Outra curiosidade. Guaracy, pai de Murilo, atendia o compositor e cantor Zé do Rancho (1927-2015), sogro de Xororó, pai de Noely, mãe de Sandy e Junior. “Um dia, ao saber que a filha dele iria se casar com o Xororó, o Zé comentou com meu pai: ‘O rapazinho é bonzinho, mas é sertanejo e, como eu, não ganha dinheiro. Estou preocupado, será que ele vai conseguir sustentar minha filha?’”, contou rindo o luthier.

Luthier de instrumentos de cordas Murilo Ferreira, na recepção de sua oficina (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Luthier de instrumentos de cordas Murilo Ferreira, na recepção de sua oficina (Foto: Carlos Bozzo Junior)

MEMORABILIA

Nas outras paredes do “hospital” de instrumentos, mais fotos e capas de discos de vinil emolduradas e penduradas chamam bastante a atenção. Entre elas, os LPs “The Rebel´s- Rua Augusta Zero Hora” (1963) e “Led Zeppelin IV” (1971) têm lugar de destaque. O LP do grupo brasileiro The Rebel´s traz na foto da capa a primeira guitarra feita no Brasil pelo avô de Ferreira, Ulisses. A segunda capa estabelece uma ligação entre o luthier Murilo e Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses. Para ambos, este foi o primeiro disco comprado com dinheiro próprio. “Bem novinho ainda, eu já fazia carreto (carregava compras em carrinhos) na feira, pelas ruas de terra de Pirituba, e com a grana comprei meu primeiro disco, este do Led”, disse Ferreira afirmando que ali está o verdadeiro rock’n’roll. “Meu, sou careta, sempre fui, mas este disco me fazia viajar. Eu olhava para o velho da foto, com este cajadão, e ouvindo as músicas pensava: será que o velho quer o mal ou o bem daquele lugar? Hoje, a molecada não sabe o que é isso, viajar sem droga. Só com foto, música e a mente”, disse o luthier.

LUTHIER FAZ TUDO

Ferreira realiza uma lutheria de A a Z. Sabe fazer tudo, desde criar um instrumento a escolher, tratar, cortar, lixar e pintar a madeira, construir a escala e bater os trastes antes de montá-lo.

Para executar seu ofício, construiu mais três espaços distintos na casa. Um para realizar pequenos reparos e manutenção. Outro para alojar o setor pesado da oficina, onde se raspa, lixa e se prepara o instrumento, ou parte dele, para encaminhá-lo à pintura. No último espaço da casa, fica a sala de pintura onde se finaliza a arte do luthier que cria, constrói, reforma e restaura instrumentos, atendendo cerca de 200 pessoas por mês.

“Depois que minha marca apareceu nas mãos de tantos artistas famosos, muita gente me liga perguntando se eu atendo quem não é artista. É claro que sim, atendo qualquer tipo de consumidor, embora 98% sejam de músicos profissionais.”

FAMOSO NA MÍDIA

Ferreira disse que foi o primeiro luthier brasileiro a postar na internet um vídeo, no Youtube, mostrando o restauro de um violão. “Não escondo o leite. Mostro tudo. Esta é minha vida. Não tem porque esconder”, disse o artista.

Entretanto, o reconhecimento na mídia veio forte em “Cheias de Charme” (2012), “novela das sete” exibida pela Rede Globo, que mencionou o nome de Murilo por meio de um de seus personagens. Maria do Rosário (interpretada pela atriz Leandra Leal) era cozinheira de um condomínio de luxo carioca que queria ser cantora. Fã do cantor Fabian (interpretado pelo ator Ricardo Tozzi), o “Príncipe das Domésticas”, ganha dele um violão com seu nome, Rosário, cravejado com madrepérola no braço. Ao entregar o presente para a moça, o galã diz que quem fez o serviço “foi o Murilo, um luthier fera de São Paulo, um parceirão meu. Não sei se você conhece”.

Segundo Murilo, ele foi procurado por várias pessoas depois de ter seu nome mencionado na novela. Entre elas, o presidente de uma empresa de instrumentos musicais eletrônicos que queria saber como o luthier havia conseguido tal façanha, pois ele havia oferecido um milhão de reais para que dissessem a marca de seus teclados e teve o pedido recusado pela emissora. “Meu, não fiz nada. Nem assisto novelas. Pediram para gravar aqui na oficina, mas as autoridades não liberaram a locação, porque tinha que interditar a rua por muito tempo. Aí, decidiram enviar um instrumento para eu colocar o nome no braço. Coloquei e eles queriam me pagar, mas recusei dizendo que sempre que eles pudessem lembrar de mim, eu já estaria contente. Foi só isso. Não sou ganancioso”, disse o artista que ficou impressionado com o número de roqueiros que, ao contrário dele, assistem novelas. “Os caras falavam que estavam de passagem pela casa da mãe e sem querer assistiram. Mentira, é tudo noveleiro”, contou rindo o luthier.

Murilo Ferreira, com viola feita para Xororó (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Murilo Ferreira, com viola feita para Xororó (Foto: Carlos Bozzo Junior)

NA GRINGA

Ferreira já saiu do país várias vezes com o intuito de conhecer fábricas de instrumentos musicais pelo mundo. No último mês de janeiro, esteve com o filho na Califórnia e foi convidado a conhecer as instalações da fábrica de violões Taylor, que produzem instrumentos vendidos entre US$ 418 (cerca de R$ 1,7 mil reais) a US$ 9.458 (cerca de R$ 38 mil reais). Durante a visita, obteve o desejado reconhecimento de um dos diretores que ficou convencido de que o brasileiro poderia realizar, com muita destreza, serviços de recuperação nos instrumentos da marca.

Parte do reconhecimento veio ainda dentro do prédio da fábrica ao receber, sem esperar, uma maleta repleta de peças universais de reposição, sistemas de nivelação e ferramentas exclusivas. Junto com a maleta, veio o convite para retornar, em setembro, com o intuito de estagiar na linha de produção da empresa, tendo o direito de perguntar o que quiser sobre o processo de fabricação e reposição das peças dos instrumentos, que têm os braços parafusados no corpo, e não colados, como a maioria dos violões. Segundo o luthier, quando viu o funcionário da fábrica enchendo a maleta com as peças, pensou: “Estou ferrado.Como vou pagar tudo isso?”, contou rindo, sem imaginar que era um presente.

Assista ao vídeo com Murilo Ferreira empunhando um protótipo da viola construída especialmente para Xororó.