Baterista de Os Incríveis bota a boca no trombone e lança DVD (parte 2)

Por Carlos Bozzo Junior
O baterista Netinho de Os Incríveis, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O baterista Netinho de Os Incríveis, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Na continuação da conversa com o Música em Letras, Netinho, o baterista de Os Incríveis, revela como foi o quase fiasco da viagem do grupo para o Japão, a versão maluca que fizeram para a música “Pata Pata”, além de contar sobre um acidente quase fatal, que acabou em festa de fãs. Leia a seguir estas e outras histórias protagonizadas pelo artista.

BOATE LANCASTER

Na década de 1960, Netinho ainda estudava, trabalhava no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), como auxiliar de escritório, e tocava bateria todas as noites, na boate Lancaster. “Era a maior boate de rock do Brasil. Ficava um monte de lambreta na porta. Naquela época, barras de gelo enormes eram entregues toda as noite nos bares e padarias de São Paulo. Tinha uns caras que, de sacanagem, pegavam e soltavam aquelas barras de gelo em cima dos trilhos dos bondes que passavam na rua Augusta.” A boate ficava no número 2.800, abaixo da esquina com a rua Oscar Freire, nos Jardins. “Quando as barras chegavam na parte de baixo da rua deviam estar a uns 150 km por hora, não sei, mas derrubavam e arrebentavam tudo que era lambreta. Era toda noite isso. Nem carro escapava”, contou o músico.

Como era menor de idade, Netinho falsificou seu documento de identidade para poder tocar no estabelecimento. “Eu mesmo tirei o número com álcool e coloquei um ano a mais para poder tocar. Fiz isso porque uma noite a PE (Polícia do Exército) entrou na boate arrebentando tudo. Corri e entrei em um freezer para me esconder”, disse o baterista que na ocasião tinha 17 anos.

Quando decidiu deixar o Senac para ficar só na Lancaster, seu chefe o aconselhou a não fazer isso, pois segundo ele “músico era tudo maconheiro e ali tinha uma carreira pela frente”, contou o músico que anos depois, já famoso com Os Incríveis, parou na frente de um banco, saltando cinematograficamente de dentro de um carro conversível último tipo, entrou todo posudo na casa de dinheiros, e sem respeitar fila ou qualquer ordem falou para o gerente: “Preciso de um empréstimo”. O gerente: “Estou atendendo este senhor”. O senhor era o ex-chefe que, atônito, o fitava sem acreditar no que via.

GRANA

Ganhava muita grana, perguntei. “Rapaz, ganhava, mas os valores eram diferentes, né? Dava para comprar um carro, mas a prazo, nunca à vista. Morei na casa da minha tia até casar, em 1969.” E, hoje, está rico depois de mais de 50 anos de carreira? “Sempre fui. Já tive várias casas, dois apartamentos de cobertura, um na Ilha do Sul (condomínio de classe média alta, no Alto de Pinheiros, em São Paulo). Hoje tenho minha casa e meu carro”, contou o músico proprietário de um antigo Toyota Corolla e da casa onde mora, no bairro do Planalto Paulista.

CARROS

O baterista sempre gostou de carros. Muitas vezes, era ele quem dirigia para a trupe de Os Incríveis, quando o grupo excursionava pelas cidades brasileiras.

Entretanto, com a grana entrando, alguns integrantes do grupo compraram carrões. Domingos Orlando, o Mingo (voz e guitarra), morto em 1995, aos 52 anos, tinha um Mustang. Lívio Benvenuti Júnior, o Nenê (baixo), morto em 2013, aos 65 anos, tinha um Triumph. Antônio Rosas Seixas, o Manito (teclados, vocal e sax), morto em 2011, aos 68 anos, tinha um Brasinca. Netinho botava banca com um MGB conversível.

Em 1966, as estradas eram novas e o movimento, pouco. Perfeitas para os garotos munidos de seus bólidos acelerarem ao máximo e tirarem rachas. “Não tinha ninguém nas estradas, só nós tirando pau. Eu tive quatro acidentes em um mês.”

Netinho com seu carro atual (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Netinho com seu carro atual (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ACIDENTE ACABA EM FESTA

Um desses acidentes foi o atropelamento de um jovem de 18 anos na avenida Paulista. Netinho atropelou o rapaz, que ficou desacordado. O baterista o colocou no carro e foi para o pronto socorro. “Eu tinha um show à meia-noite e eram sete da noite. Acharam um endereço na carteira dele. Pensei, é a casa dele, vou lá. Era em Santo Amaro. Chegando, toquei a campainha, uma menina abriu a janelinha da porta e já gritou: ‘É o Netinho dos Incríveis! É o Netinho dos Incríveis!’”.

O alarde fez com que muita gente se aglomerasse na porta da casa. Pedidos de autógrafos começaram a surgir. O artista em meio a tanta muvuca não conseguia falar a razão pela qual estava ali. “Fiquei dando autógrafos até que em um momento falei para a mãe do garoto: Olha, atropelei seu filho, mas ele está bem, fique tranquila. Vamos lá, que eu levo vocês para o pronto socorro. Chegamos e o cara estava engessado do pescoço até a cintura, além dos dois braços que tinham quebrado, mas estava lúcido. Eu falei: Graças a Deus!”

Já eram onze horas e o baterista tinha que tocar dali a uma hora. “Vocês não me levem a mal, mas tenho que ir trabalhar. Vou deixar um dinheiro para o táxi, e amanhã entre duas e três da tarde estou lá na casa de vocês para ver o que precisam.”

A família disse que não havia problema e foi embora com o garoto para casa. Netinho fez o show e, conforme combinado, no dia seguinte foi cumprir o prometido. “Fui para lá e a rua estava cheia de gente. Entrei devagarzinho e desconfiado, sem saber do que se tratava. Passei pelo meio do povo, parei na porta da casa do garoto e ele estava ali, na frente, todo engessado, ao lado de uma mesa cheia de bolo, doces, salgadinhos, refrigerantes, rindo e todo mundo feliz com ele porque eu o tinha atropelado. Coisa de filme”, contou o artista.

CHAPÉU

Os Incríveis levaram muita rasteira de empresários? “A vida inteira. Era um chapéu atrás do outro”. O que aprendeu com isso? “Receber adiantado, antes de atacar. Metade se recebe na hora em que se fecha o show para garantir. A outra metade, antes de subir no palco.” Quanto é o cachê do grupo atualmente? “O empresário deve pedir uns 20 mil. A gente recebe em torno de 15”, disse o músico que entre os anos de 1964 e 1968 recebia com o grupo o maior cachê do Brasil. Vocês trabalhavam muito? “Todos os dias. Não eram só shows, tinha rádio, entrevista, gravação, loja de disco…” Loja de disco? “Tocávamos na rádio, saíamos e íamos direto para a loja de discos tocar. Lotava. Era sucesso absoluto. Na rua neguinho gritava nossos nomes. Uma loucura.”

OS INCRÍVEIS

O grupo começou como uma banda instrumental, contrária à tendência da época onde pipocavam bandas de garagem. Os integrantes de Os Incríveis vieram de orquestras, escolas de música e com experiência musical adquirida na prática dos bailes. Com isso, aprenderam a tocar de tudo um pouco. Bolero, samba canção, valsa, chá-chá-chá, mambo e o escambau.

No grupo, Netinho era o que menos lia partituras, mas lia. “O Manito lia tudo, todos da banda liam. Por isso, a gente acompanhou a Rita Pavone”, disse o músico que junto a seus companheiros realizavam um som fortemente influenciado por dois grupos, The Ventures, dos Estados Unidos, e The Shadows, da Inglaterra. Ambos faziam um rock instrumental que ficou conhecido como “surf music”.

Além de Os Incríveis havia The Jordans e The Jet Black, entre os poucos da cena do rock brasileiro. “Lembro que fui ver na rua Augusta, no Saloon (boate extinta), um show dos Jordans e fiquei na calçada ouvindo porque era menor de idade e não me deixaram entrar”, contou o músico que frequentava também a praça Roosevelt. “Saía do colégio e ia para lá. Tinha umas quatro casas onde tocavam Hermeto Pascoal, César Camargo Mariano e Airton Moreira. Ficava na calçada ouvindo. Só via o que acontecia lá dentro, quando abriam a porta da casa para alguém entrar ou sair.”

Netinho, baterista de Os Incríveis, em sua casa, São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Netinho, baterista de Os Incríveis, em sua casa, São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PELÍCULAS

Os Incríveis estrearam o primeiro filme longa metragem a cores, “Os Incríveis Neste Mundo Louco”, produção de Primo Carbonari (1919-2006) e direção de Paulino Brancato Junior. Netinho tem cópias desse e de “Conflito em San Diego”, faroeste filmado em Ribeirão Preto, interior do Estado, em 1971. Uma produção italiana que não vingou.

“Montaram uma cidade cenográfica com saloon, igreja, cadeia e cavalos. Fiquei um mês, antes de começar a filmar, em uma usina dos Marchesi, só aprendendo a andar a cavalo. O cara, um italiano que produzia o filme, faliu, quebrou. Além de ter feito a cidade cenográfica, botou todo mundo nos melhores hotéis da cidade, com mulheres e filhos. Ribeirão era uma cidade cara. Era para termos filmado em um mês. Deu três meses e a gente ainda estava filmando. O cara quebrou no finalzinho do filme, mas ele está editado, prontinho.” Você recebeu por este trabalho? “Não recebemos porra nenhuma, e olha que eu era o ator principal.” Qual era seu papel? “Xerife”, falou rindo o batera.

JAPÃO

Os Incríveis estiveram no Japão em 1968. Lá gravaram as músicas “I Love Tokio” e “Kokorono-Niji”, em um compacto simples. Esta última, uma versão da banda brasileira para a música de J. Hashimoto e T. Inoue. Foi uma das poucas canções de origem japonesa que “causou” no Brasil. Netinho comenta: “Falaram que a tradução deste título é arco-íris azul. Pô, arco-íris não pode ser azul. Porra, ou é arco-íris ou azul. Meu, é muita idiotice”, contou rindo.

O músico afirma que Os Incríveis foram ao Japão contra a vontade dos empresários de lá. “Havia uma grande feira brasileira, no Japão, com uns estandes de café para lançar o produto. Contrataram Elizeth Cardoso (1920-1990), Zimbo Trio e Os Incríveis. Dias antes do evento, cancelaram, mas já tínhamos as passagens. Tínhamos também falado para todo mundo que iríamos. Havia saído em tudo que era jornal. Fomos embora, para lá, com uma mão na frente e outra atrás. Chegamos em Tóquio e fomos recebidos por um monte de japoneses de terno e um tradutor. Em uma comitiva de quatro carros fomos, era umas dez da noite, para um escritório no centro da cidade. Sentamos na frente deles e o tradutor perguntou o que fazíamos ali. Nosso empresário mostrou a papelada do contrato e disse que tínhamos um compromisso moral com eles e que não teve como falar para os nossos fãs que não havia dado certo”, contou Netinho que junto com o grupo ficou hospedado um mês, sem fazer “absolutamente nada”, no Grand Hotel Tokio. “Comia, bebia, dormia e fazia compras.” Segundo o músico, na hora de pagar os objetos que escolhiam, mostrando-os ao tradutor, este anotava o endereço do hotel, na nota, e quando retornavam para seus quartos estava tudo lá e pago. “Uma organização do caramba”, disse o artista que, no período em que esteve no Japão, não viu outros ocidentais.

Arrumaram uma boate para o grupo tocar músicas da moda. Risonho (guitarrista) estava doente. Uma intoxicação alimentar afetou boa parte dos ânimos da banda. O que tocavam? “Tocávamos sucessos. Uma vez, na música ‘Pata Pata’, naquela hora de declamar, o Nenê estava de saco cheio da situação e mandou: ‘Pata is a dance. Pata Pata is, is, is…a p… que o pariu, seus filhos das p…, vão se f…’ Meu, todo mundo sério na plateia ouvindo aquilo e a gente caindo de rir”, contou o músico que levou esta peculiar versão de “ Pata Pata”, canção imortalizada pela cantora sul-africana Miriam Makeba (1932-2008), ainda para Hokkaido e Otaru, entre outros lugares do Japão.

Netinho, o baterista de Os Incríveis em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Netinho, o baterista de Os Incríveis em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

UFANISMO

Como foi a gravação do hit “Eu Te Amo Meu Brasil”, de Dom (1944-2000), da dupla Dom e Ravel (1947-2011), perguntei. “A mídia ferrou a gente com isso. Faltava uma música. O Dom já tinha dado umas três, quatro músicas para nós nesse disco, pedimos se ele tinha mais uma e ele cantou: ‘As praias do Brasil ensolaradas (cantarolou o baterista)’. Achamos legal, porque vinha a Copa do Mundo, falava das praias, do sol e do país tropical. Gravamos em marchinha, rapidinho, sem arranjo, nada. Foi só para preencher o disco. Ninguém apostava nela”, contou o baterista acrescentando que dois dias antes de sair o disco, foram no programa de TV da Hebe Camargo (1929-2012) apresentar a música. Foi um enorme sucesso e vendeu um milhão de cópias rapidamente. “Nessa época, qualquer disco que chegava ao primeiro lugar vendia cem mil, nós arrebentamos vendendo um milhão. Foi uma loucura. Éramos moleques e não tínhamos nada na cabeça de política, direita ou esquerda. Era música e mulher. Depois de muitos anos, montávamos um show e sempre vinha um jornalista cobrar a gente de ter feito música para a direita. A gente estranhava.”

Segundo Netinho, com essa música o estigma criado de que eram de direita aumentou. “Em1982, quando tentamos voltar com o grupo, os caras (jornalistas) começaram a pegar pesado. Voltamos com rock, mas mesmo assim, até hoje, sempre que vamos para o interior vem um jornalistazinho novo e publica algo sobre essa música e que somos alienados”, falou. “Tinha uma parte da banda que queria fazer esse tipo de som. Eu não. O Dom era um bom compositor. Ele tinha um lado político chato de puxar o saco do governo, mas era bom compositor”, disse Netinho.

Vocês venderam 15 milhões de discos. Isto é verdade? “Rapaz, é difícil calcular porque não tínhamos os números exatos. A gente era muito roubado e enganado. Era tão primário antes, que o artista nunca sabia de nada. Mas fomos grandes vendedores de discos, sim.”

Leia no próximo post a última parte desta entrevista

Assista abaixo ao vídeo com o baterista dando um de seus autógrafos estilizados para o Música em Letras.

Show de lançamento DVD “Netinho Comemora 50 anos de Os Incríveis- Ao vivo”
QUANDO Quinta-feira, dia 27 de agosto, às 21h30.
ONDE Club A, av. das Nações Unidas, 12559 – Brooklin Novo, São Paulo, tel.(11) 3043-8343.
QUANTO R$ 80

DVD “Netinho Comemora 50 anos de Os Incríveis- Ao vivo”
DIRETOR Wagner Malagrine
DISTRIBUIDORA Gravadora Eldorado
QUANTO R$ 29.90