Bar do Alemão contradiz frase de Millôr

Por Carlos Bozzo Junior
Da esquerda para a direita o violonista Serginho Arruda, o cantor João Borba, Barão do Pandeiro e o ritmista Jorginho Cebion (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Da esquerda para a direita o violonista Serginho Arruda, o cantor João Borba, Barão do Pandeiro e o ritmista Jorginho Cebion (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Segundo Milton Viola Fernandes, que fez muito som com palavras, talvez por carregar um instrumento em seu desconhecido nome de batismo, “As horas solitárias da madrugada não são boas num bar cheio de gente”. A frase, assim como o nome, são de Millôr Fernandes (1923-2012). Embora nela haja graça, também há uma mentira.

Ainda menor de idade, frequentei inúmeros bares de São Paulo, sempre correndo atrás da música. Entre eles, o Bar do Alemão, na avenida Antártica, próximo ao estádio Palestra Itália, desculpe, ao Allianz Parque, a arena multiuso da Sociedade Esportiva Palmeiras.

O dono do bar, nos anos 1970, como o antigo estádio, não existe mais. O bar, sim. Dagoberto Caldas Marques, o dono, era “tirador de sarro” e bom pandeirista. Várias vezes, pediu que me retirasse do local, por conta do juizado de menores que frequentemente dava por ali suas “batidas”. Com o tempo, Dagô, como era chamado, se tornou um grande amigo e já na minha maioridade, um companheiro de muitas partidas de sinuca pelas madrugadas da cidade.

Ao contrário da máxima colhida, há muito, neste mesmo bar afirmando que “No Brasil, nada dá certo. Aqui, traficante cheira, prostituta goza, cafetão tem ciúme e dono de bar bebe”, Dagô não bebia, mas fumava. Fumava profissionalmente. Era tanto, mas tanto, que virou pauta de uma matéria de jornal intitulada “Não fumo mais porque não dá tempo”. Pura verdade. Naqueles tempos, fumava-se dentro dos bares da cidade sem restrições. Isso dava fôlego para o “tanto” de cinco maços por dia que Dagô carburava. Era tanto, mas tanto, que muitas vezes presenciei o homem acender um cigarro na bituca, ainda acesa, do cigarro que ainda fumava. Foi tanto, mas tanto, que o matou.

O compositor Eduardo Gudin dá uma canja tocando tamborim na roda de samba do bar do Alemão (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor Eduardo Gudin dá uma canja tocando tamborim na roda de samba do bar do Alemão (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O bar, hoje, é de propriedade do compositor Eduardo Gudin, assíduo frequentador do local, desde os anos 1970, ao lado de Nelson Cavaquinho (1911-1986), Paulo César Pinheiro, Vicente Barreto, Serginho Leite (1955-2011), Roberto Riberti, Paulo Vanzolini (1924-2013) e um sem número de músicos que por ali passavam em busca de um rango, uma tragada, um papo qualquer ou um “mé”, e quase nunca atrás de uma mulher. Manja bar de pirata? O Bar do Alemão, da era dagoniana, estava mais para isso. A frequência masculina imperava.

Contudo, quem preenchia a carência do sexo feminino no local era a música. Era ela quem amansava as “horas solitárias da madrugada”, além de atrair algumas atrizes, jornalistas, revisoras, professoras e psicólogas, entre outras, melhorando o astral e tornando o “bar cheio de gente” necessária. Noites em que a música se concretizava na cidade como manifestação cultural coletiva e apaziguava ânimos incomodados.

Numa dessas noites, esta gente que enchia a casa levantou-se para receber Clara Nunes (1942-1983) e cantou para ela “Mineira”, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira (1941-2000). A imagem da cantora profundamente emocionada povoou para sempre minhas “horas solitárias da madrugada” num bar cheio de gente. Em outra noite, foi a vez de Walter Alfaiate (1930-2010), Dona Ivone Lara e Xangô da Mangueira (1923-2009) serem aclamados pelos frequentadores e com eles dividirem o prazer de musicar. Vários foram os artistas que agradaram o público e vice-versa.

O ritmista Jorginho Cebion tocando tamborim na roda de samba do bar do Alemão (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O ritmista Jorginho Cebion tocando tamborim na roda de samba do bar do Alemão (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Talvez o único artista que “pagou” de persona non grata para o antigo dono do estabelecimento tenha sido Vinicius de Moraes (1913-1980). Pelos relatos de Dagô, parece que o poetinha levou à letra o dito de Millôr. Na única ocasião em que esteve no bar, o autor de “A Brusca Poesia da Mulher” mamou o mesmo tanto de cigarros que Dagô fumava e começou a importunar algumas das mulheres que ali estavam. Foi convidado a se retirar e nunca mais voltou.

Histórias relacionadas a este bar com música, músicos e compositores extrapolam até mesmo o número de cigarros fumados por Dagô. Hoje, o Bar do Alemão não é mais bar de pirata, mas continua fazendo história com suas fotos de artistas – inclusive a do Dagô- penduradas nas paredes, boa cozinha, bom atendimento e boa música. A diferença é que antes nada era programado. Tudo acontecia de uma maneira que parecia espontânea. Quase como uma “flash mob”, que não se dispersava tão rapidamente. Os músicos chegavam, se armavam, tocavam e “canjeavam”, até de manhã.

Atualmente, trocando o incerto pelo certo, nomes como o do sambista e cantor João Borba, Barão do Pandeiro, do ritmista Jorginho Cebion, do violonista Sérginho Arruda e do jornalista e bandolinista Luis Nassif, o Turco, como era chamado pelo Dagô, asseguram o som que algumas vezes conta com canjas de Gudin ao violão. Data e hora certas firmam compromisso e justificam o couvert artístico de R$ 15. Barato para saber que naquele dia (noite) e naquele horário, eles estarão ali ajudando a enfrentar com dignidade as horas solitárias da madrugada tornando-as boas, num bar cheio de gente.

Assista ao vídeo da roda de samba do Bar do Alemão, captado pelo Música em Letras.

RODA DE SAMBA NO BAR DO ALEMÃO
QUEM João Borba, Barão do Pandeiro, Serginho Arruda e Jorginho Cebion
QUANDO Quinta-feira, às 21h
ONDE Bar do Alemão. Av. Antártica, 554, tel. 11 3879-0070
QUANTO R$ 15 (couvert)