Show de Caetano e Gil abre o festival Viva Brasil, em Amsterdã

Por Carlos Bozzo Junior

Assista a vídeo com Alaor Soares, curador do festival de música Viva Brasil, que acontece na Holanda em 25 de junho.

A première mundial da turnê “Dois Amigos, Um Século de Música”, que deve passar por 18 cidades de 11 países da Europa, celebrando os 50 anos de amizade e carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil, acontece dia 25 de junho, no Royal Concertgebouw, em Amsterdã. No Brasil, os shows devem rolar nas cidades de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, mas ainda sem datas confirmadas.

O evento dos “bródis” baianos abre, na Holanda, o festival Viva Brasil, que na edição anterior teve um orçamento de 2,5 milhões de euros para levar música de qualidade do Brasil para a Europa. O ingresso mais caro, nesta noite, será de 85 euros. Entretanto, o evento oferece shows de outros artistas (Alceu Valença, Maria Gadú, Fabiana Cozza, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, entre outros), a 30 euros o ingresso, que vão acontecer em dois teatros muito especiais: Muziekgebouw e Bimhuis, segundo Wynton Marsallis, uma das melhores salas do mundo para se tocar jazz.

O Música em Letras entrevistou o paulistano Alaor Soares, 56, músico, curador do festival e responsável por sua programação artística. Soares esteve de passagem pelo Brasil para realizar os acertos finais do evento.

Leia, a seguir, quem é Soares e o que se apurou sobre esse importante festival que valoriza a MPB no exterior, desde 1994.

O BATERISTA

O primeiro instrumento de Soares foi a bateria. Depois, apaixonou-se pela percussão e a estudou no Conservatório de Tatuí, na Fundação das Artes, em São Caetano do Sul, e no Conservatório Municipal, em São Paulo, mas não terminou nenhum dos cursos. Nem por isso, deixou de se profissionalizar, e saiu tocando com muita gente e em alguns grupos, entre eles o extinto Sossega Leão. Acompanhou o compositor Roberto Riberti, Zezé Motta e Cauby Peixoto, além de ter feito muitos shows pelo Brasil, mas sua base era São Paulo.“Toquei no O Beco e muitas vezes tive que parar de tocar e desmontar a bateria correndo, porque começava a pegar fogo na fiação do palco”, falou o músico sobre a famosa boate inaugurada em 1966, no lugar de um boliche, e destruída por um incêndio em 1984, durante um ensaio com a cantora Maria Alcina.

“ÁREA” DO BRASIL

“O Collor (presidente Fernando Collor de Mello) entrou e eu saí. Namorava com uma menina brasileira que queria estudar dança em uma academia de Amsterdã. Ela me convidou para ir e, apesar de ter trabalho aqui suficiente para me sustentar, achei ótimo conhecer a Europa. Fui e fiquei”, disse o baterista Soares, que há 24 anos mora na Holanda e tem cidadania do país.

Depois de cinco anos morando no exterior, a companheira de Soares voltou para o Brasil, mas ele ficou. “Dei muita sorte. Quando cheguei na Holanda quis estudar e me especializar em música latina. Fui estudar no Conservatório de Roterdã, que aqui equivale a uma faculdade, para me formar em ritmos latinos. Depois de um ano de curso, eles estavam procurando um professor que pudesse dar aulas de música brasileira e fui convidado. Com o contrato de trabalho, tirei minha autorização para permanecer no país”, disse Soares que permaneceu cinco anos lecionando no local e fazendo shows pela Europa.

Nos shows, Soares se disponibilizava a fazer de tudo, rock, pop, jazz e música latina. Entre os grupos com quem tocou, figuram nomes famosos no exterior, como a banda de hard rock Golden Earring, Entwine (banda finlandesa de metal gótico), além de ter atacado na Zuco 103, banda com influência de eletropop, samba e bossa nova.

Soares parou de dar aulas depois de criar e apresentar um workshop de “team building” (construção de equipe), utilizando a percussão. O evento foi realizado para melhorar a relação entre os funcionários de uma empresa, aumentando assim sua produtividade. “Adorei e eles adoraram. Reparei que a vibração do evento era muito melhor do que a que eu tinha no conservatório”, disse o músico que contava com cinco alunos por ano no estabelecimento de ensino. “Na Holanda, o professor ganha, no máximo, um aluno por ano, porque é difícil entrar no conservatório. Há uma seleção muito rígida”, acrescentou Soares, afirmando ter um espírito nômade e por isso não gostar de permanecer muito tempo em um mesmo lugar. Assim, trocou o ensino no conservatório para promover wokshops em diversas empresas.

FESTIVAL VIVA BRASIL E VIVA BRASIL CONCERT

A ideia do festival surgiu quando Soares foi com sua mulher- e organizadora do festival Viva Brasil-, Gracia Caffé, assistir em 1994 um festival na Bélgica chamado Viva Brasil. Gostaram tanto do que viram e escutaram que propuseram ao organizador do festival abrir uma sucursal do evento em Amsterdã. “O nosso continuou e o da Bélgica acabou”, disse Soares.

O Viva Brasil acontece sempre durante o verão europeu. Foi realizado de 1994 até 2001, para voltar em 2013. “Paramos de 2002 a 2013 por uma série de fatores. O festival sempre foi um sucesso. Tínhamos ótimos patrocinadores e os ingressos se esgotavam rápido, mas trabalhos paralelos nos afastaram durante esse período do festival. Aproveitamos a aproximação da Copa do Mundo e das Olimpíadas para retomá-lo, porque sabíamos que o Brasil iria querer se promover. Voltamos com força total em 2013, trazendo Gal Costa e Djavan.”

Cerca de seis mil pessoas comparecem ao Viva Brasil, que divide seu público entre estrangeiros e brasileiros. O festival não será on-line, mas depois dos shows trechos serão disponibilizados na página do evento na internet (veja endereço e programação no fim da matéria).

Do show de Gil e Caetano, Soares não revelou o valor do cachê, mas disse não haver nenhuma exigência esdrúxula. “Não pediram nada em especial. São artistas extremamente simples e muito gentis. O repertório, sabemos que será de músicas conhecidas, além de uma parceria inédita feita exclusivamente para a ocasião”, falou.

Viva Brasil Concert é outro evento famoso que Soares promove com música brasileira durante o ano, também na Holanda, mas sem datas fixas. “O modelo que mais usamos para realizar esse outro evento é aproveitar artistas que já estejam viajando, de passagem pela Europa. Assim, viabilizamos melhor o evento aproveitando as passagens aéreas. Este ano, isso talvez mude pois conseguimos o patrocínio da [empresa aérea] Air Europa”, disse o músico que já levou atrações como João Bosco, Marisa Monte, Alcione e, em outubro, ou novembro- a data ainda não foi confirmada-, contará com a apresentação de Bebel Gilberto.

TEATRO

O festival Viva Brasil é o único concerto de world music com permissão para ser realizado no Muziekgebouw, que, em uma tradução livre, significa “Prédio da Música”. Construído para priorizar sua utilização com apresentações de música de câmara, um de seus teatros tem capacidade para acolher mil e quinhentas pessoas em pé e 750 sentadas. “É um teatro muito especial e bonito. É um prédio muito alto, todo de vidro e concreto, localizado na beira de um lago, atrás da estação ferroviária central de Amsterdã. A sala desse teatro pode ser utilizada para qualquer tipo de concerto. Você pode ‘afinar’ a sala porque o chão, as paredes e o teto são móveis”, disse o organizador do evento.

FAREJADORES DE ARTISTAS

Soares e Gracia sempre estão à procura do que está acontecendo no Brasil para levar ao festival, que recebe três tipos de artistas: os ícones (que atraem o grande público), os emergentes (tanto na Europa quanto no Brasil) e artistas que desenvolvem um trabalho em que a música brasileira tenha uma grande influência. “Não precisa ser música puramente brasileira. A Tânia Maria, por exemplo, saiu do Brasil por conta da ditadura militar e nunca mais voltou. Ela nunca havia participado de um festival brasileiro. O nosso, até agora, parece ter sido o único. Seu show mostrou esta terceira vertente do festival, ou seja, realizou músicas com influência da música brasileira”, explicou o curador do evento.

Soares recebe material de toda parte do mundo e comparece todos os anos à Womex, importante mostra de world music, que este ano acontecerá em Budapeste, na Hungria, de 21 a 25 de outubro. “Sou louco para levar artistas do Maranhão, Amazonas e outros Estados do Brasil, mas dependemos de patrocínio. A bilheteria de um festival não cobre a produção, artistas e todos os custos. Por isso, sempre procuramos a parceria de algum órgão oficial do Brasil que tenha interesse em promover a cultura brasileira no exterior”, falou o responsável pela realização do evento, disponibilizando duas maneiras para que os artistas entrem em contato e enviem seus materiais: “Pode ser pelo site do festival, ou pelo meu e-mail Alaor@redondo.nl . O que sempre pedimos é o áudio e um vídeo de uma performance ao vivo. O show é muito importante para nós. Por isso, venho ao Brasil e assisto a vários”, disse Soares afirmando estar aberto a qualquer gênero de música, embora o festival contemple mais a MPB.

Entre alguns nomes de artistas que Soares pretende levar para o festival de 2016, há nomes que “seriam muito bem vindos”, como os de Marisa Monte, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e a “Marrom” Alcione. “Entramos em contato com o empresário do Zeca Pagodinho, mas a comitiva dele é um pouco grande demais. Acho que ele gosta de se sentir em família”, disse rindo o curador.

Algo atípico acontece nesse evento: o público compra ingressos antes mesmo de saber qual será a programação do festival. “Tentamos ser uma espécie de jornal que veicula o que acontece na música brasileira. As pessoas compram antecipadamente por terem a certeza de que serão surpreendidas com música de qualidade”, explicou o curador do festival, que deve ganhar em 2016 uma versão enxuta, de um dia, para a Espanha e para a Alemanha.

Veja programação completa do festival Viva Brasil em http://www.vivabrasil.nl/