Arena acusmática. Acus…o quê?

Por Carlos Bozzo Junior

Veja vídeo realizado pelo Música em Letras da Arena Acusmática, inaugurada no último dia 27 de maio, no Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo

O Música em Letras esteve em Vitória, no Espírito Santo, para cobrir a abertura do projeto musical Sonora Brasil, 2015 (leia post anterior). O evento aconteceu no prédio do Centro Cultural Sesc Glória, há sete anos em reforma, mas que aos poucos revela suas novas dependências e seus usos em favor da arte.

Entre outros espaços adequados à disseminação da cultura houve a inauguração, no dia 27 de maio, de uma sala chamada Arena Acusmática, com uma “difusão” realizada às 18h para a imprensa, seguida de sessões abertas ao público.

Leia, a seguir, o que é uma arena acusmática, como acontece uma “difusão”, quem a realiza, e mais sobre esses termos relacionado à música eletroacústica, além de conferir as impressões de quem esteve no disputado evento, que contou com uma sessão extra para atender o público presente.

Arena Acusmática do Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Arena Acusmática do Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ARENA ACUSMÁTICA

Acusmático vem do grego. O termo era utilizado para se referir, no teatro, ao som que não demonstrava sua fonte. A origem do termo é do século VI a.C., quando o filósofo Pitágoras ensinava atrás de uma tela para que seus alunos prestassem mais atenção na mensagem transmitida por sua voz.

O compositor François Bayle criou o termo “música acusmática”, em 1974, para qualificar uma espécie de música eletroacústica realizada em estúdio para depois ser reproduzida em alto-falantes. Não há performance ou partitura nesse tipo de música. As luzes da sala, dependendo da peça, são desligadas para que o ouvinte sinta mais os sons.

Portanto, uma arena acusmática é um espaço onde se realizam “difusões” de música eletroacústica para o público. A sala inaugurada no Sesc Glória, com capacidade para 40 pessoas, é a primeira da região Sudeste, e a segunda do país. A outra fica em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

EQUIPAMENTO

A sala do Sesc tem capacidade para rodar peças em sistema 10.2. As apresentadas na inauguração utilizaram sistemas 8.0 e 5.1. O que é isso? Simples. O número à esquerda do ponto designa quantos alto-falantes comuns (que produzem sons médios e agudos) o sistema possui. O número depois do ponto representa o número de subwoofers que o sistema comporta. Subwoofers são caixas de som feitas para reproduzirem frequências baixas, os graves. Portanto, um sistema 5.1 conta com cinco caixas comuns e um subwoofer para envolver o ouvinte. A sala acusmática possibilita ao ouvinte um posicionamento, por vezes, impossível de acontecer em uma sala comum. O som projetado nesse tipo de sala pode levar o ouvinte para o meio de uma orquestra. Assim, essa maneira de escutar deixa o ouvinte “dentro” da obra.

Na arena acusmática do Sesc, dez alto-falantes comuns e dois subwoofers estão conectados a uma interface de som ligada a um computador, que por sua vez está conectado a uma mesa de som. Nessa mesa fica o controle da sala. Nela, entre outras coisas, é possível controlar o sistema de alto-falantes. Isso não implica a presença de uma pessoa durante a “difusão” de uma peça musical, pois por meio de um IPad, pode-se controlar a peça de qualquer lugar.

O chão é acarpetado e plano. As paredes, como o chão, são “peludas” e irregulares em seus formatos. Algumas são retas e outras arredondadas. As cadeiras podem ser dispostas de várias formas. Podem ficar em fileiras ou, como na ocasião da inauguração da sala, disponibilizadas em formato de flor, com os ouvintes olhando diretamente para a parede. Normalmente, cada composição musical pede uma organização diferente da sala.

Segundo Constantino Gabriel Buteri Neto, 40, psicólogo, músico formado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e assessor de música do Sesc, responsável pelas contratações das apresentações do local, ainda não foram definidas nem a periodicidade, nem as atrações que devem preencher o espaço de som. “A ideia é variar a programação entre ‘difusões’ e instalações sonoras”, disse ao Música em Letras, afirmando que para esta sala também estão designadas algumas experiências sensoriais e oficinas com conteúdo de trabalho sensorial sonoro. Para este ano, segundo Buteri, está prevista uma mostra de música eletroacústica, ainda sem data definida. Entre alguns nomes que o funcionário do Sesc tem em mente para o evento estão alguns Pelés desse tipo de música. Entre eles, Fernando Henrique de Oliveira Iazzetta, Brian Holmes e Flo Menezes.

Os compositores de música acusmática Felipe Mendes, à esquerda e Marcus Neves, à direita, na inauguração da Arena Acusmática do Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Os compositores de música acusmática Felipe Mendes, à esquerda e Marcus Neves, à direita, na inauguração da Arena Acusmática do Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

COMPOSITORES-DIFUSORES-PROFESSORES

Na inauguração da sala houve a presença de dois compositores desse tipo de música: Felipe Mendes de Vasconcelos e Marcus Neves. A maioria dos compositores de música acusmática envereda pela via acadêmica, ensinando e sempre estudando. Não é comum ser de suas obras ou “difusões” que ganhem o sustento para viver, embora alguns prêmios sejam remunerados. Entretanto, também não é fácil ser ganhador a toda hora.

Nas falas dos dois compositores, palavras em inglês e jargões afloram por todo discurso. Buteri, funcionário do Sesc, ao iniciar o evento fez uma breve explanação do que se tratava e, ao passar a palavra para os compositores, titubeou e quase troca o usual verbo “tocar” por “difundir”, largamente usado no meio eletroacústico: “Vou passar a palavra para os compositores e se eles quiserem começar toc…’difundindo’, eles podem começar”.

O primeiro a falar foi Felipe Mendes de Vasconcelos, 29, mineiro radicado no Espírito Santo, graduado em composição na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), com mestrado na URGS (Universidade do Rio Grande do Sul), é doutorando na UFMG.

Mendes, que trabalha com esse tipo de música desde 2012, contou, entre outras experiências, ter abocanhado o quarto lugar do 4° Concurso Latino Americano de Composicíon Electroacúsitica y Eletrónica Gustavo Bacerra Schmdit, que aconteceu no Chile, em 2013. O motivo? Sua composição, “Vulnerant Onmes” que significa “todas ferem“, peça concebida com 90% de sons (ruídos), obtidos de um violão.

Em entrevista concedida ao Música em Letras, o compositor explicou que o título da música refere-se à inscrição em latim, comumente gravada em relógios antigos da Europa: “Vulnerant omnes, ultima necat” (em português, Todas as horas ferem, mas a derradeira mata). O autor disse haver, na peça, a intenção de associar como sentimos o tempo na música.

A peça levou um ano para ser composta. “Há uma bula ou uma partitura para ela?”, perguntei. “Não. Nem bula e nem partitura. A música eletroacústica rompeu com dois paradigmas. Um é o intérprete. Ela não precisa de intérprete. No máximo, um ‘difusor’ para dar um play e controlar os volumes. E partitura não precisa, pois a música já vem pronta”, falou Mendes.

Sobre sua primeira peça apresentada, “Num Lugar nos Limites do Terceiro Céu”, Mendes disse ter tentado trabalhar com elementos simples do cotidiano. “Quando a gente começa a trabalhar com essa música, percebemos sons sutis e corriqueiros como passear na rua, andar no parque ou pisar em folhas secas. Esses barulhos de gravetos, de metal raspando e outros mais começam a ser elementos musicais”, explicou o músico que captou (gravou) e manipulou os sons descritos para a composição.

Sobre a paisagem sonora que a peça produz, explicou: “É um lugar em que nunca estive, mas pela imaginação e pelos sons a gente consegue chegar lá”. O autor disse ainda que “o público leigo ouve e associa imediatamente a uma trilha sonora”. Imediatamente me reconheci parte de tal público, e não tive a menor vergonha em perguntar se há casos de plágios no meio da música eletroacústica. A resposta que o compositor deu foi: “Se você pegar e manipular meu som em sua música, o plágio desaparece ali, no meio, mas nunca vi um caso assim”.

RUÍDOS CAPIXABAS

Outro “difusor” presente no evento foi o capixaba Marcus Neves, professor da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), compositor das músicas acúsmáticas “Sobre Todos os Sons”, “Que Pode Soar Texturas Passadas II” e “Glass II”, sua última criação.

Neves gosta de ter a possibilidade de transformar um rangido em algo musical. “Glass II” tem pouco mais de nove minutos de duração. Como foi composta? “Eu estava lavando louça. Peguei um copo de vidro com a borda mais grossa. Escorregou a esponja e eu passei o dedo. Falei: ‘Pô, esse som aqui é legal. Taí o material!’ Decidi trabalhar com esses dois sons. Aí acabei de lavar a louça, peguei o copo e fui para o banheiro. Botei meu gravador no meio do copo e fiquei lá brincando. Colhi esse material. Depois, fiquei neuroticamente gravando copo por copo e taça por taça. Depois, decupei e transformei esse material. Levei para um software e passei por uns plugins. Fiz uns procedimentos técnicos e organizei isso musicalmente”, falou o professor que tirou o som da peça toda de um copo e de uma taça de cristal, trabalhando a ideia de rugosidade e aspereza, por meio do som.

Outra peça apresentada, ou melhor, “difundida”, foi “Sobre Todos os Sons”, poema misto de paisagem sonora sobre “Todos Os Sons”, de Augusto de Campos.

Depois, Neves “difundiu” de sua autoria “Que Pode Soar Texturas Passadas II”. Segundo ele, “trata-se de uma textura de modulações de frequência inventada no final dos anos 1960, antes de virar vedete, nos anos 1980, quando foi incorporada no teclado DX7 da Yamaha. Todos queriam utilizar esse tipo de procedimento em suas músicas”. O artista da peça, que remete ao som vintage de trilhas sonoras para filmes de ficção científica dos anos 1960, suou muito para realizá-la. “Trabalhei na construção de um instrumento virtual, em que eu conseguiria tocar várias modulações de frequência, em cascata, de modo que eu construísse essa textura. Então, o som puro e cru dessa técnica, é que remete a filmes de ficção científica”, disse o compositor, que tem a peça como parte da coletânea de 2011 do FILE Hipersônica, evento dedicado às manifestações musicais, sonoras, visuais e performáticas da arte eletrônica.

Neves reconhece que a maioria das pessoas “não quer ouvir e não curte esse tipo de música”, mas rebate: “Como sou professor, minha formação de público começa na sala de aula. Mesmo nela há resistência. Leva um tempo. Minha meta é abrir esse nicho”, disse o professor que coordena o Grupo de Experimentação Sonora na universidade onde leciona.

REPERCUSSÃO

As “difusões” duraram cerca de 40 minutos em cada sessão. O público era formado por alunos de música, jovens e pessoas de meia idade.

A primeira sensação é de estranhamento, talvez pelo fato de termos a tendência de associar o som a alguma coisa, e não a enxergarmos. O som vem de todos os lados. Da frente, de trás, dos lados, envolvendo o ouvinte completamente.

Como em qualquer tipo de música, segundo Mendes, “há as boas e as ruins”. A sensação de suspense que uma de suas peças ocasionou em uma ouvinte o agradou. “Quando você vai acostumando o ouvido, melhora um pouco, mas tem peças de que não gosto por não me agradarem mesmo.”

O susto é comum em alguns momentos. Principalmente quando um som é projetado de uma caixa específica, de onde o ouvinte não está esperando, o susto acontece. Quando um som sutil passa para um som mais forte, o susto também é a reação mais corriqueira. Os subwoofers, responsáveis por emitirem sons graves de grande volume, provocam um impacto físico, forte a ponto de sentirmos o deslocamento da massa de ar.

Dependendo da mixagem que se faz e do procedimento de espacialização, temos a sensação de estarmos mais perto ou mais longe de alguns objetos sonoros.

Uma ouvinte participante do evento reclamou que a sala tinha problemas, com vazamento de sons externos. Mendes confirmou, dizendo que “esse problema deve ser corrigido”, e revelou que tanto uma ambulância, quanto uma moto pegaram carona em uma de suas peças, mimetizando-se sonoramente em meio aos ruídos. Para a maioria dos ouvintes- eu inclusive-, ambos os sons faziam parte da composição “difundida”.

VOX POPULI

Dori Santana, 42, é pianista de música popular. Toca jazz, MPB e blues. Segundo ele, a experiência adquirida na sala é completamente diferente. “Ela te leva para caminhos diferentes do caminho, completamente emocional, da música popular. Você transcende o corpo e vai para outros lugares dos sons. Sons que não são comuns. Curti demais.” Voltaria?”, perguntei. “Já vou ficar para a outra sessão”, respondeu.

Verediana Barreto, 34, técnica de música do Sesc Tocantins, também aprovou o espaço. “Esse foi o primeiro contato com a música eletroacústica, sozinha, que tive. A gente sempre a escuta em filmes, etc. Achei uma experiência ímpar. É ótimo poder reconhecê-la em um outro espaço, em outro formato. É bom saber que tem gente trabalhando com isso de uma forma extremamente profissional, como os compositores convidados.”

Um músico, que não quis se identificar, deixou a sala após alguns minutos e disse: “Isso é um absurdo e chato. Não é música”.

Afinal, o que é música?

Preconceito à parte, mas ir a um concerto ouvir alto-falantes é, no mínimo, inusitado. Entretanto, a música eletroacústica não é melhor nem pior que a música acústica, mas um outro modelo, que apresenta uma outra possibilidade de escuta. Mais livre, esse tipo de música propõe novas estratégias de composição, estruturada com uma estética completamente diferente da usual e encontrada na música instrumental. Por isso, se sua percepção está calcada em harmonia, escalas, altura e ritmos que definem gêneros como o forró, MPB, jazz e o samba, entre outros, prepare-se para experimentar o novo.

O espaço inaugurado mostrou-se essencial para a disseminação deste modelo de amealhar, organizar, processar, desconstruir e nos inserir em novos sons. Mesmo que eles sejam apenas ruídos. Acorde para um barulho desse.

 


Ouça no vídeo acima, um trecho captado pelo Música em Letras da composição acusmática”Glass II” do compositor Marcus Neves, difundida na inauguração da Arena Acusmática do Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória, no Espírito Santo. Atenção, no vídeo não há imagens, apenas sons, pois a sala onde aconteceu a difusão da peça manteve suas luzes apagadas com o intuito que se sentisse melhor a música sendo difundida.

ARENA ACUSMÁTICA

Local: Centro Cultural Sesc Glória
Endereço: Av. Jerônimo Monteiro, 428 – Centro, Vitória, Espírito Santo
Data e horário: Consulte programação
Informações: (27) 3223-0720

O jornalista Carlos Bozzo Junior viajou a convite da organização do evento.