João Borba leva menu de sambas para França, Inglaterra e Vila Formosa

Por Carlos Bozzo Junior


Assista o vídeo acima com João Borba, cantando trecho de um de seus sambas.

 

O Música em Letras esteve, ontem à tarde, na casa do cantor e compositor de sambas João Borba para uma conversa com muitas revelações. Entre elas, a que o cantor vai se apresentar na França, Inglaterra e amanhã, domingo, dia 24 de maio, na Vila Formosa, São Paulo, em show gratuito.

Leia, a seguir, trechos dessa conversa.

Borba não gosta de revelar a idade e diz: “Passei de setenta”. Contudo, o texto do encarte de seu CD “Memória do Samba Paulista” a revela. Quer saber? Procure pelo disco, além desta informação surpreenda-se ouvindo um cantor do ramo, interpretando músicas bem escritas e bem arranjadas. Entre elas, uma pequena sequência de samba de lenço, da região de Piracicaba, uma da muitas manifestações culturais que acontecem no interior do Estado. “É coisa de senzala. É a base do samba paulista”, disse o artista que amealha 60 anos de carreira.

DE UM RIO PARA OUTRO

João Odair de Oliveira Borba nasceu em Piracicaba e, ainda de colo, veio para São Paulo. Aqui se criou. Passou a infância no bairro de Pinheiros brincando, estudando e desde cedo trabalhando. Quando moleque, fazia muita batucada na beira de campos de futebol no bairro homônimo ao rio Pinheiros.

De Pinheiros, foi parar no Jabaquara, vila Guarany. Depois, para o Butantã, antes de morar no bairro do Ferreira e sair de lá para construir uma casinha no Embu, onde ficou por mais de 20 anos. Saiu do Embu e foi para a zona Norte da capital, onde está até hoje, em Santana. A mãe era lavadeira e o pai, funcionário público (contínuo no palácio do governo), além de alfaiate.

DROGAS E RELIGIÃO

“Drogas, nunca experimentei. Fui viciado em cigarro e corrida de cavalos, mas parei. Sempre fui equilibrado”, disse o músico que, apesar de ver no meio artístico pessoas usando drogas, não se incomoda. “Não tenho nada contra quem usa”, falou.

Personificando o sincretismo religioso brasileiro, Borba é devoto de Nossa Senhora da Aparecida – vai ao santuário de duas a três vezes por ano- e na umbanda, segundo ele, “para me proteger”.

O cantor e compositor João Borba, em entrevista para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O cantor e compositor João Borba, em entrevista para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SURDO PERDE PARA MICROFONE

Quando completou 18 anos, foi chamado para tocar surdo em um baile de carnaval. Era no Clube do Sargento, na avenida Senador Queirós. “Ensaiamos um mês.” No dia da apresentação, sábado de carnaval, o cantor “mandou o Lima” (não foi) e Borba assumiu o microfone para nunca mais largar. “Naturalmente, ele recebeu uma paga melhor para fazer outro trabalho. Aí o gerente da banda falou: ‘Você vai cantar’. Comecei e não parei mais. Fiz sete bailes direto. Não sei como consegui, mas deu certo”, falou Borba, que de criança ouvia muita música porque o pai trabalhava com o rádio ligado. “Aprendi muito assim”, contou.

TRABALHOS

Borba sempre trabalhou. Cursou o primário na escola Godofredo Furtado, na rua João Moura. “Eram quatro anos, mas fiz em cinco porque repeti um”, contou o artista que teve seu primeiro emprego em uma vendinha na rua Cônego Eugênio Leite. Tudo em Pinheiros. “Saía da escola e ia trabalhar. Ajudava a servir, arrumar mercadoria, varria e fazia entregas de bicicleta”, disse o cantor afirmando, “era fácil, não tinha tanto carro. ‘Chocava’ bonde na rua Teodoro Sampaio e caminhão na Rebouças para subir”. “Chocar” era gíria para pegar carona nos veículos, segurando na carroceria, deixando-se puxar.

Depois da vendinha, Borba trabalhou em oficinas de bicicletas. “Consertava porque eu adorava bicicleta. Tinha muita bicicleta de empório e mercearia, as cargueiras. Tudo importada. Trabalhei dois anos nessa vida”, disse o cantor que consertava as “magrelas” antes de realizar concertos com seu outro grande talento.

Depois de trabalhar como office boy, em uma papelaria no centro de São Paulo, resolveu aprender uma profissão: encanador. “Comecei a trabalhar como ajudante de encanador, em uma loja da avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Fiquei nessa loja até entrar no serviço público, também como encanador. Foi como consegui sobreviver. Isso me ajudou muito”, falou Borba que hoje é aposentado na profissão.

Como o pai do cantor trabalhava no palácio do governo, o mordomo do local soube que ele tinha um filho encanador e convidou-o para trabalhar ali também. “Fiquei quatro anos no palácio. Entrei em 1972 ou 1973. Não era ruim, mas a grana era muito pouca. Dava para quebrar um galho porque eu fazia meus bicos fora”, contou o artista, que para não entrar pelo cano com suas finanças, cantava e arrumava encanamentos fora do palácio.

Borba cantava no Teatro Popular Brasileiro do folclorista pernambucano Solano Trindade (1908-1974), que também foi poeta, pintor, ator, teatrólogo e cineasta. “Dançávamos maracatu, candomblé, samba e lundu”, falou o artista que casou com a coreógrafa do grupo. “Ela descobriu um concurso na Assembleia Legislativa para formar o quadro de funcionários. Prestei e passei como encanador. Foi em 1976. Saí do palácio e fui para a Assembleia. Ela também fez o concurso e passou em um cargo acima do meu, como taquígrafa. Assumimos os cargos em 1977 e me aposentei em 2004”, contou Borba que ficou viúvo.

João Borba, compositor de "Emossamba" (Foto: Carlos Bozzo Junior)
João Borba, compositor de “Emossamba” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

MALANDRAGEM

Borba já estava envolvido com escolas de samba. Tinha feito sambas para a Pérola Negra e puxava sambas na avenida. Puxava também no Império do Cambuci. “O Basílio da Rosas de Ouro me disse: ‘Preciso de você amanhã para cantar. Consegue faltar no serviço?’ Consigo, onde é o lugar? Ele falou: ‘Amanhã nos encontramos e te levo’. O cantor decidiu cabular o serviço e “mandou o Lima” (não foi) no palácio. “Adivinha onde ele me levou? No palácio, fui cantar na sala do homem (o governador Laudo Natel). Meu chefe, quando me viu cantando, nem cortou meu ponto. Aí, como eu já estava lá, fiquei e trabalhei um pouco ainda”, contou o encanador e cantor.

GAFIEIRAS

Aos 17 anos, Borba frequentava, nas tardes de domingo, a gafieira Campos Elíseos na alameda Olga, mas só para dançar e namorar. Nessa época, ainda não soltava o gogó. “Modéstia à parte, dançava bem.Tinha várias bandas. Tocavam swing, samba, bolero e muito jazz. Eram músicos aplicados, muito bons. A maioria dessas bandas vinham com 12 músicos no palco”, disse. “Namorava bastante?”, perguntei. “Precisava, né?”, respondeu rindo e acrescentando: “Havia o fator elegância. Tinha que estar sempre bem vestido. Na estica mesmo. Terno, gravata, sapato inteiro, não sapato torto, e nunca repetir roupa”.

Depois que começou a cantar, sua voz “embolerou” e fez sambar muitos casais, em várias gafieiras da cidade. Nenhuma delas existe mais. Paulistano da Glória, na rua da Glória; Sabará, na Domingos de Moraes; Som de Crystal, na rua Rêgo Freitas; e a saudosa Tangará, na rua Butantã.

Segundo Borba, a Tangará nasceu por volta de 1958, “de um pessoal do jóquei e um dono de gafieira”. “O pessoal do jóquei trabalhava no domingo e não tinha onde se divertir. Por isso que o som no Tangará começava domingo à noite e ia até às quatro da manhã de segunda-feira”, falou. Borba contou que consertou encanamento de muito escovador, tratador, jóquei e donos de cavalos. “Às vezes me davam uma barbada (indicação para jogar). Nem ganhei, nem perdi. Empatei.”, contou o músico que parou de apostar, mas ainda frequentava o prado. “Ia só para tomar cerveja e comer pastel com os amigos”, disse o cantor que não conhecia a seguinte piada de turfe.

Um sujeito viciado falta a uma reunião no hipódromo. Na reunião seguinte, um amigo que estranhou sua ausência, o encontra e pergunta: “O que aconteceu?” O viciado responde: “Perdi minha mãe.” O amigo, não menos viciado, pergunta preocupado: “Em que páreo?”.

CARROS

Borba tirou sua carteira de habilitação em 1970, mas dirige desde 1960. Teve uma Kombi e cinco fusquinhas. Depois, comprou um Gol “quadrado”, antes dos dois “bolinhas”. Teve um Peugeot e seu primeiro Nissan foi um Tiida. Agora, o cantor dirige um sedan Versa, também da Nissan, 2013.“Não estou na idade de ficar empurrando carro. Trabalho de madrugada, tenho que ter carros decentes, que não me deixem na mão. Carrego som e muita aparelhagem”, falou o músico que ama carros.

O cantor João Borba em entrevista para o Música em Letras, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O cantor João Borba em entrevista para o Música em Letras, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)

GINGA NA GRINGA

Em 2008, Borba foi pela primeira vez para a França cantar. No próximo dia 19, será a sétima vez que pisará em solo francês. Lá, faz uma média de oito shows. Ganha cerca de 300 euros por apresentação. O cantor deixa a França no dia 6 de julho e vai para Londres, onde também se apresenta antes de voltar para o Brasil, dia 10 de julho. “Ainda não sei o lugar que vou cantar na Inglaterra, mas estou muito feliz de ir para lá”, disse o artista que tem três CDs, mas gravou muito samba enredo antes de seus discos. O músico fez samba com diferentes parceiros para várias escolas do interior e da capital, entre elas, Peróla Negra, Império do Cambuci, Peruche, Tucuruvi e Império da Casa Verde. Pretende mostrar parte dessa experiência nas apresentações no exterior.

SHOW

Amanhã, domingo, dia 24 de maio, Borba faz um show, gratuito, no teatro Zanoni Ferrite, na avenida Renata, 163, Vila Formosa, às 19h. No repertório, músicas de seus três CDs. De “Memória do Samba Paulista” (2013), você vai ouvir, entre outras, “Reconciliação”, dele e de Chicão da Edna; “Esse seu Nó na Garganta”, dele e de Wandi Doratiotto e “Emossamba”, dele (assista trecho no vídeo). Do CD “João Borba Canta Jorge Costa- Ao Vivo” (2007), aprecie “Triste Madrugada”, “Ladrão em Casa de Pobre” e “Samba da Rosa”, todas do compositor alagoano Jorge Costa, que morreu em 1985 aos 73 anos. Do CD “Eu Comigo e meus Amigos-João Borba” (2013), delicie-se com “Mangueira de Todos os Nelsons”, “Quando o Amor Chegar” e “Banho de Cultura”, todas de Borba, sendo a última referência à mudança de endereço dos desfiles carnavalescos paulistanos, da avenida São João para a avenida Tiradentes, em 1977.

Além das músicas próprias de Borba, haverá “Autonomia”, de Cartola (1908-1980), “Verde”, de Eduardo Gudin e Costa Netto, entre outras, executadas por um time de primeira: Luizinho Sete Cordas, tocando violão que lhe faz jus ao nome; Sérginho Arruda, violão de seis; Marcelo Kurchal, cavaco; Luiz Carlos Borrão, surdo e percussão; Stanley Carvalho, clarinete, e Miguel Marcolino, pandeiro.

Menu bem elaborado, com opções para atender a todos os gostos. Experimente e alimente a alma. Afinal, aqui não custa nada. Caso contrário, vá a Paris ou Londres.