A obra de Radarnesto Gnattareth

Por Carlos Bozzo Junior
Ernesto Nazareth, a esquerda, e Radamés Gnattali (Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)
Ernesto Nazareth, à esquerda, e Radamés Gnattali (Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

Com o intuito de comemorar a data de nascimento de Ernesto Nazareth (1863-1934), no dia 20 de março, acontece amanhã, 26 de março, às 20h, no IMS-RJ (Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro), a apresentação de arranjos para dois pianos, escritos por Radamés Gnattali (1906-1988) para músicas de Ernesto Nazareth. O evento que terá, entre outras, as interpretações de “Fon-Fon!”, “Fidalga” e “Pairando”, ganhou o nome Ernesto Nazareth 150 + 2: Os arranjos de Radamés Gnattali.

Os arranjos que serão executados no recital são raridades que foram tocadas ao vivo por Gnattali e sua irmã Aída na rádio Nacional e na rádio MEC, nos anos 1950 e 1960. Ambos chegaram a gravar 10 desses arranjos, que demonstram energia, vivacidade e maestria, tanto do ponto de vista do arranjo quanto de sua execução. No evento, seis que nunca foram gravados estão garantidos. Entre eles, “Matuto”, “Carioca”, “Labirinto”, “Batuque” e “Nenê”. A música “Odeon”, composta por Nazareth inspirada no cinema homônimo, onde tocava na sala de espera, também será interpretada.

A obra de Nazareth sempre esteve muito presente na de Gnatalli, que foi, além de excelente compositor, maestro e arranjador, pianista dos bons que tocava concertos de Tchaikovsky (1840-1893) e sonatas de Liszt (1811-1886), antes de enveredar para a música popular. Gnatalli expandiu a obra de Nazareth com novas linguagens nos anos 1950, mas sem nunca perder sua essência.

INTÉRPRETES

Os pianistas Alexandre Dias e Maria Teresa Madeira são os instrumentistas que apresentarão parte da obra de Nazareth, que mesclou elementos do lundu, havaneira e polca para criar, talvez, um dos primeiros gêneros da música brasileira, o “tango genuinamente brasileiro”, segundo o próprio compositor. Carioca, Madeira, 55, formou-se em piano pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, em 1997, registrou pela gravadora Kuarup o CD “Sempre Nazareth”, com o bandolinista Pedro Amorim. Atualmente, está gravando a obra completa do compositor encontrado morto em uma represa de Jacarepaguá, próxima ao manicômio onde fora internado com sífilis um ano antes. Dias, 31, brasiliense, é pianista, professor e pesquisador que direciona seus estudos para a música brasileira do final do século XIX e início do século XX, com ênfase em Nazareth do qual pesquisa obra e discografia há 16 anos. Entre 2007 e 2012, registrou cerca de 70 músicas raras do compositor.

Como parte do evento de comemoração, serão disponibilizados gratuitamente pelo site (www.ernestonazareth150anos.com.br) textos, discografia completa, linha do tempo, biografia, arranjos, manuscritos, imagens, hemeroteca, partituras editoradas e revisadas de 211 composições de Nazareth na versão original para piano, além de 120 composições inéditas com melodia e cifra.

O Música em Letras conversou com o pianista Alexandre Dias, por telefone, de sua casa em Brasília. Leia, a seguir, trechos da conversa sobre o recital que terá em seu programa, entre outras, as músicas “Improviso”, “Confidências”, “Digo”, “Elegantíssima” e “Apanhei-te Cavaquinho”.

ARRANJOS

Segundo o pianista, “esses arranjos são dificílimos, mas magistrais. Uma coisa pode ser dificílima e ao mesmo tempo antipianística, mal escrita. O que não é o caso, pois são extremamente bem escritos”, falou acrescentando que os arranjos exploram os recursos do piano ao máximo, elevando seu potencial. Não existe um piano que enverede mais pelo caminho do solo e outro mais pelo acompanhamento. Ambos são muito bem trabalhados em constantes diálogos com uma linguagem muito bem elaborada e por igual. “Há vários meses que estamos estudando os arranjos. São do nível de Rachmaninoff, sem brincadeira”, falou o pianista referindo-se ao compositor, pianista e maestro russo Sergei Vasilievich Rachmaninoff (1873-1943), autor de Concerto para piano n.º 3 em ré menor, Op. 30, conhecido pelos pianistas por “Rach 3”, dono da reputação de ser um dos mais difíceis de todo o repertório para este instrumento.

Dias debruçou-se sobre os manuscritos originais, que estão no IMS e na Biblioteca Nacional, e constatou um fenômeno ocorrido entre as primeiras edições da obra de Nazareth e as mais modernas que chama de “telefone sem fio”. “A cada nova cópia, novos erros foram incorporados. Fizemos um trabalho para corrigir isso ouvindo as gravações de Nazareth”, disse Dias, afirmando que os erros encontrados referiam-se à falta de notas e compassos.“Na maioria das vezes, há erros mais brandos como a falta de uma indicação de intensidade, por exemplo ‘piano’ ou ‘forte’, que não muda uma melodia, mas o ataque dela”, explicou.

Entretanto, há erros mais grosseiros de notas inseridas nas músicas, que não fazem o menor sentido. Em “Apanhei-te Cavaquinho” tem um erro desses que foi perpetuado na segunda parte da melodia. A nota não deveria estar lá, mas está. Depois de um tempo, a maioria dos intérpretes passaram a incorporá-la”, disse o pesquisador afirmando que em “Odeon” outros erros também ocorrem. “Tem várias notas da segunda parte que foram subtraídas e elas compõem um acorde. Isto altera a textura da harmonia. Além disto, o último compasso para finalizar a peça, nas edições da década de 1960, foi eliminado. Voltamos a inseri-lo, pois é um acorde cheio para cada mão, que dá um acabamento para a música”, explicou.

Erro mesmo é perder a oportunidade de assistir a este raro concerto, que reúne o trabalho deixado por dois grandes responsáveis pela qualidade da música instrumental brasileira, agora na interpretação de dois excelentes instrumentistas.

Acerte e compareça. O IMS fica na rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea, Rio de Janeiro.