Naná Vasconcelos de corpo e alma

Por Carlos Bozzo Junior
O percussionista Naná Vasconcelos, que faz shows e grava em São Paulo neste final de semana (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O percussionista Naná Vasconcelos, que faz shows e grava em São Paulo neste final de semana (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Tudo em sua vida, vira som. Por exemplo, uma folha de papel ou um saco de batatas fritas servem para fazer o som da labareda do fogo. Segundo a atriz Regina Casé, até seu primeiro nome, Juvenal, também está imbuído de som. “É ótimo para se chamar de longe: Juvenaaaaaal!”, contou rindo Naná Vasconcelos em entrevista ao Música em Letras, no hotel onde está hospedado, em São Paulo, para realizar três audições públicas de seu último CD, “4 Elementos”. O evento que envolve projeções, dança e muito som acontece no Sesc Ipiranga, amanhã, dia 20, e sábado, dia 21, às 21h. No domingo, dia 22, às 18h.

Na audição, Naná pretende mostrar, contando com a participação do público, como se dá seu processo de criação, utilizando como exemplo as músicas de seu último CD, inspiradas nos quatro elementos da natureza: água, ar, terra e fogo.

Como será o espetáculo? “Cheio de Roberto Carlos”, falou já rindo de meu espanto e explicando: “Cheio de ‘detalhes’ inventivos e curiosos, que estimulam as ‘emoções’ ”, disse referindo-se às composições do rei.

O que Naná faz de maneira genial, absurdamente musical e criativa é explorar as propriedades do som com muita eficiência. São elas sua altura (grave e agudo), intensidade (fraco ou forte), duração (tempo que dura o som) e timbre (a qualidade do som). Nossos ouvidos externos recebem as ondas sonoras propagadas pelo instrumento, como o saco de batatas fritas que Naná sabiamente manuseia. Essas ondas passam por uma espécie de amplificador em nosso ouvido médio, chegam a nossos cérebros que acabam por interpretá-las, no caso como o som do fogo, em nossos ouvidos internos. Esta é a definição do Música em Letras sobre o caminho percorrido pelo som produzido pelo músico, consagrado mundialmente. Leia a seguir a versão dele.

A AUDIÇÃO

“Sou um percussionista que procura fazer música com percussão. Percussão não é para quem toca mais alto ou mais rápido, mas para quem faz música com ela”, disse Naná, que em nenhum trabalho se repete e sempre se supera. “Não estaciono, isto faz parte de mim”, disse confirmando a evolução de seu penúltimo trabalho “Sinfonia e Batuques”, no qual fez percussão na água da piscina de sua casa. Desta experiência nasceu sua inquietação para o último CD, “4 Elementos”. “Depois da percussão, resolvi fazer também a melodia na água”, falou referindo-se à faixa “Chorágua”, parte da audição.

Como vai mostrar isto no palco para o público paulistano, que padece há meses por falta deste elemento? “Aí é a grande surpresa”, falou rindo sem revelar, mas garantindo que todos terão acesso ao precioso líquido e com ele realizarão música. Vinhetas com o som do fogo permeiam todo o disco. O músico deve explicar para o público que, para compor, além de imagens usa dois instrumentos melódicos, um gongo em ré e o berimbau, que emite duas notas.

Na audição,“Astronáfrica”, terá a explanação de uma de suas observações percebidas no decorrer da carreira. “Entendi que no som existe um negócio de raça. Cada raça -não cor, mas raça- tem um comportamento diferente. O norte-americano, por uma questão orgânica, bate palmas no contratempo. Nós brasileiros, batemos no tempo. Isto é natural e torna difícil para o norte-americano bater palmas no tempo”, contou o músico que percebeu o fenômeno quando morava em Paris e contratou percussionistas africanos, de lugares distintos, para integrarem um grupo. “Cada um sentia o tempo em um lugar diferente. É uma coisa orgânica, é natural esta diferença”, disse, afirmando ter imagens surrealistas que utiliza para compor. “Tem sempre um cenário em minhas criações. Nesta música imaginei uma coisa que eu acredito que vá acontecer, eu não vou estar aqui, mas a cena é a seguinte: Um grupo de astronautas africanos vai dançar um coco nos anéis de Saturno”, disse, sem conter risadas revelando a fonte de sua inspiração para abordar o elemento ar.

“Terráqueos” traz a diferença orgânica das raças mesclada à música eletrônica, herança adquirida em seu trabalho “Bush Dance”, de 1987, no qual realizou solos com “vários Nanás. Sou eu e minhas várias vozes. Até a de Juvenal tem”.

“Clementina” é uma homenagem à cantora Clementina de Jesus (1901-1987), que conheceu em 1972, quando foi convidado por Hermíno Belo de Carvalho para gravar com ela. “Fiquei muito emocionado. Ela começou a cantar um patuá africano que até hoje me lembro. Era uma coisa muito forte o que esta senhora fazia”, disse entoando o canto. No mesmo ano, gravou o emblemático “Milagre dos Peixes”, com Milton Nascimento, e comenta: “Foi um disco no qual ele foi proibido pela censura de cantar as letras. Por isso, ele usou um som, cantarolando hum, hum, um, hum, hum…”, cantou novamente.

O berimbau abre o show/audição por ser seu instrumento principal. “Tudo que faço saiu dele. Ele transformou minha vida. Então, primeiro toco ele para lavar a alma e preparar o ambiente”. No espetáculo, “Légua Tirana”, de Luiz Gonzaga (1912-1989) e Humberto Teixeira (1915-1979), também é interpretada pelo som do artista. A ex-BBB (Big Brother Brasil, 2014) Bella Maia participa dançando em “Coco Lunar”. “Ela vai estar na plateia, sem o público saber. Se levanta e começa a dançar de um jeito que o povo pensa: ‘Êita, pega a doida!’ ”, revelou rindo e acrescentando que este será o único número da dançarina, “senão vira balé”.

Há ainda na audição uma música em homenagem ao percussionista Airto Moreira. “Chegamos praticamente juntos nos Estados Unidos. Fomos nós que introduzimos a percussão brasileira no jazz. Antes disso havia apenas ritmistas cubanos e porto- riquenhos que tocavam bongôs, congas e maracas. Nós chegamos com apitos, penicos, caçarolas, queixada de burro e cuíca. Miles Davis abraçou de um lado e Gato Barbieri de outro. Isto modificou o som do jazz”, revelou.

Já a composição“Nizinga”faz parte da trilha do filme homônimo, no qual também foi ator coadjuvante e que tinha como protagonista a atriz Adriana Lessa.“Eu cortejava a personagem Nizinga. A mãe de santo dela dizia: ‘Vá lá e procure o velho senhor negro e ele vai lhe mostrar a riqueza da África que existe na cultura brasileira. Aí, eu levava ela para a ciranda (com a Lia de Itamaracá), coco, maracatu e candomblé”, disse o músico sobre o filme que nunca foi terminado.“Houve um desentendimento e cortaram todas as imagens em que Adriana aparecia. Ai acabaram com o filme”.

Na apresentação, irá mostrar o poder da percussão cantando a música “ad libitum” (expressão encontrada em partituras que instrui o músico para que sua interpretação seja livre, sem a marcação rígida do ritmo e do andamento) e usando o “talk drums”, instrumento da região oeste da África. “Farei eles sentirem o papel da percussão. Vou mostrar, primeiro, a música de maneira bem dramática. Depois, ela vira um samba de roda”. Neste momento, serão projetadas fotos de mais de 40 mulheres negras nuas, grávidas, clicadas “elegantemente” pelo fotógrafo João Rogério.

A participação do público inclui a produção de palmas, vozes e sons de partes do corpo misturados aos do artista, que estará, como diz, “de corpo e alma” para mostrar que o que faz “não tem mistério”.

Perguntei ao músico se ele percebe diferenças entre a participação do público de São Paulo com relação aos de outros Estados. “Totalmente. O som sai diferente, depende de cada lugar. Aqui as pessoas se comportam diferente, elas escutam mais. Elas estão ali para te ouvir. Você sente esta responsabilidade. Não tem oba-oba. No meu conceito é assim: pernambucano briga, mineiro se esconde, carioca enrola, São Paulo propaga e consome, baiano se beija e ganha tudo”, falou rindo e completou “esta diferença de público, existe em todo lugar do mundo. No Japão, eles batem palmas todos juntos, ao mesmo tempo, e subitamente ficam em silêncio. Depois, eles vão no camarim pedir autógrafos e dão em troca cartões de visitas com o autógrafo deles”, comentou gargalhando.

Percussionista Naná Vasconcelos batucando (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Percussionista Naná Vasconcelos batucando (Foto: Carlos Bozzo Junior)

BARBATUQUES

A relação do músico com São Paulo é ótima. O músico gosta da cidade e a cidade parece gostar muito dele, que inaugurou, em 2005, com o pianista Marcelo Bratke, o auditório Ibirapuera, além do museu Afro Brasil, em 2004, entre inúmeros shows e gravações que realizou na cidade.

Aproveitando sua estadia na cidade, Naná vai gravar no disco do grupo paulistano de percussão corporal Barbatuques. “Vamos gravar minha música ´Samba de Nêgo de Saia é Bem Melhor´ e mais uma deles”, disse o percussionista autor do rap mencionado. É Naná quem conta: “Vim uma vez para São Paulo fazer um concerto com a Jazz Sinfônica na ULM (Universidade Livre de Música). Ensaiava com a orquestra à tarde e fazia workshop de manhã. Um deles, acho que o Fernando Barba, fazia parte deste grupo que foi ao meu workshop. Quando voltei, um ano e meio depois, eles haviam formado o Barbatuques, inspirados, de certa forma, no Organic Wokshop, no qual promovo o entendimento dos ritmos através dos sons do corpo, não uso instrumento nenhum. Até hoje faço isso”, disse.

Do convite disse ter adorado, pois acha o grupo maravilhoso, mas alerta: “Veja como são as coisas. Vou participar do disco deles, mas tenho que ter o cuidado de não parecer que eu estou imitando eles”, disse rindo sobre o desafio. Na semana que vem, o músico já está escalado para gravar com Zeca Baleiro, também aqui na capital, mas não revela o que por não ser o dono do misterioso projeto.

Entretanto, conta que seu próximo trabalho autoral inclui orquestra, provavelmente a OCAM, Orquestra de Câmara da ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP, (Universidade de São Paulo), regida pelo maestro Gil Jardim, com quem já trabalhou em outros projetos como o “ABC Musical” e o “Língua Mãe”, mas não há previsão de quando será. “Estamos conversando ainda. Gosto do Gil porque ele é um dos caras que conseguem tirar o som de uma orquestra como poucos. Ele é o cara ideal para isso”, disse Naná, revelando que já tem o material todo escrito para trabalhar a ideia de “extremos nos sons. Não extrema-unção”, explicou o músico que deve mesclar erudito com popular.

No final do ano passado, entre outros lugares do mundo, Naná fez shows e workshops em Jerusalém e Tel Aviv, participando de um festival que reuniu músicos de vários lugares do mundo para apresentarem músicas sagradas de suas terras de origem. “Havia gente da África, Índia, Austrália e Estados Unidos”, falou o percussionista que embarca no próximo mês parte para mostrar sua arte em Cabo Verde e Portugal.

Qual é a participação do viajado músico no bistrô e café Vasconcelos’ Restaurant, ponto de encontro para os amantes da boa cozinha, aberto em agosto passado por sua mulher, Patrícia, no centro de Recife? “Só nos nomes dos pratos, que fazem menção aos meus projetos e a minhas músicas, além da escolha da santa Sara Khali, padroeira dos ciganos, colocada na entrada do local”, disse o percussionista que prefere continuar com a música e mudar de atividade só no dia em que o Saci cruzar a perna ou a mula der cria.

Enquanto isto, assista o vídeo abaixo e atenda o convite sonoro feito por Naná Vasconcelos, com exclusividade para o Música em Letras.