Música cura?

Por Carlos Bozzo Junior
O saxofonista Tércio Guimarães e banda "injetando" música em quem assistiu seu show na última sexta-feira, na praça da Esperança (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O saxofonista Tércio Guimarães e banda “injetando” música em quem assistiu seu show na última sexta-feira, na praça da Esperança (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Desde setembro de 2011, o projeto Cultura Livre SP, que funciona durante o verão, a primavera, e o início de outono, oferece música gratuitamente para a população paulistana. Segundo o site do projeto (veja programação completa em http://www.culturalivre.sp.gov.br/), foram mais de 624 apresentações levadas para cerca de 690 mil pessoas.Tudo em três parques da cidade e uma praça. Esta chama a atenção por servir de passagem para pessoas que transitam por um hospital, o das Clínicas. Às sextas-feiras, ao meio dia, nela acontecem apresentações de música instrumental, em meio a médicos, pacientes e muita gente que simplesmente passa pela praça. O nome? Praça da Esperança.

No local, ao lado do Instituto de Ortopedia e Traumatologia, um toldo protege das intempéries o pequeno palco, que fica de frente a seis ombrelones abrigando cadeiras. Todas destinadas ao público, além dos bancos de alvenaria da praça. O Música em Letras foi lá conferir o som de Tércio Guimarães, saxofonista baiano, que apresentou o show “Pelo Mar de Caymmi”. Choveu nota, mas também muita água e fez sol. Contudo, pouca gente arredou o pé. Interessante foi observar que muitos que por ali passavam, paravam e ficavam por longos minutos, em pé, escutando as músicas. Os que apenas ralentaram os passos foram inúmeros. Os que sentaram, ouviram e saíram, sendo substituídos por outras pessoas também. O que prova ser difícil passar pelo “pico” incólume.

Contaminado pela atmosfera do lugar, o Música em Letras entrevistou passantes, “sentantes” e músicos. Entre as perguntas: “Música cura?” Leia a seguir o que se ouviu.

O SHOW

Tércio Danilo Souto Guimarães, 35, soteropolitano, há 6 anos mora em São Paulo. Foi integrante da Orkestra Rumpilezz, orquestra de percussão e sopros do maestro Letieres Leite. Tocou ao lado da Cantora Zélia Duncan no projeto Totatiando, uma homenagem à obra do compositor Luiz Tatit, além de ter “atacado” com Carlinhos Brown.

No show da praça, estava ao lado dos “médicos”, ou melhor, dos músicos, Webster Santos (bandolim, guitarra, violões), Igor Pimenta (contrabaixo elétrico) e Orlando Bolão (percussão). No som, músicas de Dorival Caymmi (1914-2008), com ritmos afro-baianos. Entre eles o aguerê, utilizado na abertura do espetáculo em “Canção da Partida” e “O Vento”, além do ijexá demonstrado em “Você Já Foi à Bahia” e “Vatapá”. Com sopro bonito, Guimarães realizou solos bem executados em meio a arranjos originais. Mesmo com as harmonias refeitas, mostrando caminhos novos para melodias bastante conhecidas, a música arrancou dos lábios de quem a ouvia trechos de suas letras acompanhados de vários sorrisos. Ok, música traz alegria, mas música cura? O saxofonista acredita que sim e explicou: “Se feita com verdade, a música transmite emoção. Se esta emoção for boa para a pessoa que está doente isso ajuda no tratamento”. Para o homem das cordas, Webster Santos, 44, “música cura porque transforma. Música muda qualquer pessoa”, disse acrescentando sobre o fluxo do local: “Aqui é bacana porque podemos dar a música em doses homeopáticas para as pessoas. Elas passam, vêem, param, ouvem, ficam, se curam, levantam e vêm outros no lugar”.

O PÚBLICO

Kelly Tosca Ferrari, 52, bióloga, trabalha no banco de sangue do Hospital das Clínicas. Disse que sempre que pode assiste aos shows. Aproveitou o horário de almoço para fazer um serviço de banco e acabou se sentando para ouvir a música, mesmo com chuva. “Quando a música é boa, não tem problema.” Quanto ao poder de cura da música, acredita que “ajuda bastante, mas pode piorar também. Eu fico em um estado lastimável, desestruturo e perco a paciência muito rápido, com heavy metal. Peço, pelo amor de Deus, para meus filhos desligarem o som. Minha sorte é que eles não ouvem funk”, afirmou contrapondo: “Uma boa música, como esta que estamos escutando, te estrutura, te centraliza e te faz ter mais paciência com as coisas”.

Tiago Pires Camargo Oliveira, 25, motoboy acidentado há um ano e meio, assistia o show ao lado de um par de muletas. Mesmo com a perna direita imobilizada, sai de Embu das Artes, onde mora, e vai ao hospital para realizar fisioterapia. Este não era o primeiro show que assistia no local. “Já vi uns três shows, mas estes caras são muito bons. Isso é música inteligente”, disse o amante de MPB, especialmente da bossa nova que para ele “conforta muitos corações aflitos. Ela tem o poder de deixar a pessoa se sentindo mais leve e isto contribui para o bem estar”, falou acrescentando: “Afinal, quem canta seus males espanta”.

A FARMÁCIA

Nenhum dos entrevistados soube citar um caso de cura pela música. Entretanto, ao imaginar que eles existam e que um dia a ciência comprove a eficácia da cura por meio dos sons, o Música em Letras descreve dois diálogos suscetíveis de acontecer.

Sujeito entra na farmácia e pede: “Amigo, por favor, me dá uns dez compassos de Djavan, com letra”. “Desculpe, senhor, mas para que seria?”, perguntou o farmacêutico atento às novas regras da Anvisa (Agencia Nacional das Vozes Inigualáveis Sem Antecedentes). Entre elas, a de que é proibido fornecer medicamento, ou melhor, música (ainda mais com letra), sem antes perguntar e preencher um formulário relatando detalhadamente o porquê da solicitação. Sem jeito, o cliente chama o farmacêutico de lado e diz: “Rapaz, olha só, vem cá, na miúda, que ninguém nos ouça. Sou criativo em uma agência de propaganda. O Djavan é para curar uma tremenda falta de originalidade que me acomete, há mais ou menos umas duas semanas. É sério, estou à beira de perder o emprego. Todo mundo entende o que eu escrevo. Olha, está difícil, me ajuda”, falou em voz baixa, quase sussurrando. “Desculpe, senhor, mas Djavan está em falta. Só o genérico, Jorge Vercillo, e neste caso não adianta levar. Só vai piorar. Melhor é o senhor esperar pelo de marca”, completou.

Garota entra na mesma farmácia e pede: “Moço, por favor, me arruma uns três compassinhos de Elis Regina”, pediu. “Para que seria, moça?”, perguntou o prudente farmacêutico sempre de olho nas novas regras da Anvisa e de seu emprego, é claro. “Olha, na verdade é para cantar, dividir, suingar e interpretar para cacete. Estou cansada de tentar, tentar, tentar e nunca rolar. Tenho o mesmo timbre dela, coisa e tal, mas não consigo. Tem jeito?”, perguntou, já demonstrando a dor pela voz. “Olha moça, só o timbre dela não adianta. Isto muito cantora também tem. Tem de ser músico e dos bons. Só tomando os de marca e durante muito tempo. Genéricos nem pensar. Ah, e se prepare porque são bem caros. É tudo importado: Ella, Sarah, Carmen, aí quem sabe…Mas não garanto, não. Depois, ainda tem que se tratar com os nacionais, de referência. Só os de marca: Elza, Emílio, e o escambau. Olha moça, sinceramente, desista”, falou o homem por detrás do balcão.

Enquanto não se ouve bobagens como as de cima, aproveite e ouça música instrumental de qualidade na praça da Esperança. Entre outros bons lugares na cidade, este ao menos tem no nome a garantia de ser o último a ser extinto.

Como Chegar: A praça da Esperança está localizada dentro do complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), no bairro Cerqueira César, próximo a avenida Rebouças. Fica em frente ao Prédio da Administração do Hospital da Clínicas. Use a entrada do complexo pela rua Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255.

Assista um trecho do show do saxofonista no vídeo abaixo.