Cantora mete a boca no trombone

Por Carlos Bozzo Junior

Assista a cantora Sara Chretien cantando à capela “Just One Of Those Things” de Cole Porter com exclusividade para o Música em Letras

Sara Lydia Chretien, 75, nasceu em Roterdã, Holanda, e desde criança queria ser cantora. Batalhou muito para isto. Viveu lá durante a Segunda Guerra Mundial. Teve pai ausente. Menor de idade, trabalhou longe de casa, como recepcionista de hotel. Engravidou. Casou com um músico brasileiro (baterista). Integrou o famoso e revolucionário grupo de bailes Modern Tropical Quintet. Mudou para o Brasil e chorou muito por isso. Comprou uma carteira da Ordem dos Músicos. Sofreu com a ingratidão e descaso de um grande compositor da MPB. Aturou inúmeros bêbados, cantando, entre outros locais, no Le Club (da Galeria Metrópole); 150 Night Club (do Maksoud Plaza Hotel) e em A Baiúca (do centro e do Jardins), todas extintas e famosas casas noturnas de São Paulo. Hoje, a artista disputa lugar de músico com gente abastada.

A holandesa fez do canto seu meio de vida, além de um passaporte com validade perene para qualquer lugar onde ainda exista bom gosto e respeito pela música. Chretien canta e muito bem. “Cantei em todos os países ocidentais da Europa, bicho”, disse a artista, em entrevista ao Música em Letras, concedida em sua casa, no bairro da Pompéia, em São Paulo, onde mora há mais de cinquenta anos.

COMEÇO

Aos sete anos, Chretien cantava em casa, com a família, músicas de Irving Berlin (1888-1989), George Gershwin (1898-1937) e Cole Porter (1891-1964). Mocinha, só queria ouvir Count Basie (1904-1984), Stan Kenton (1911-1979) e Glenn Miller (1904- 1944). Na época, segundo ela, essas eram “as orquestras”, reconhecendo que até a mais comercial delas, a de Miller, “era comercial sim, mas bom de ouvir”. “O que existia na Holanda, no pós-guerra, era medíocre. Tinha música folclórica e muito ruim. Aquelas danças com tamancos, horríveis”, falou.

GUERRA E FAMÍLIA

“A Europa era muito pobre, por isso houve a guerra. Foi muito ruim e foi bom. Evoluiu muito a Europa após a guerra. Naquela época, todos eram pobres. Alguns tinham dinheiro de família, mas nós éramos pobres. A minha mãe criou os filhos sozinha, não sei como, mas criou. Na família, todo mundo era muito musical. Todos tocavam e cantavam. Tínhamos até um quinteto vocal. Minha avó, por parte de mãe, tinha 12 filhos, que uma vez por semana se reuniam para cantar. Só durante a guerra que não. Porque os filhos homens estavam nos campos de trabalho alemães. Eles recolheram todos os homens aptos para o trabalho para fazer munições na Alemanha, nas fábricas de bombas. Meu irmão, com 17 anos, era muito musical, mas nunca teve oportunidade porque éramos muito pobres. Nunca tivemos incentivos, nem dinheiro, para estudar alguma coisa. Ele queria ser saxofonista, coitadinho. É vivo, mas está internado, na Holanda, com problemas de depressão.

PAI COMUNISTA

“Não posso falar de meu pai porque não o conheci direito. O nome dele era Josephus Hendricus Hermanus Adrianus, morreu com 79 anos de câncer de pulmão, de tanto fumar. Ele foi preso no fim de 1940, por conta da política. Ele ficou preso até 1945. Foi um pai totalmente ausente. Minha mãe contou que ele passou por cinco ou seis campos de concentração. Ele era um dos líderes do partido comunista da Holanda. Pegaram ele logo depois que enviou umas mensagens para Londres. Eu só o vi, depois de crescida, uma vez, na Alemanha. Eu estava trabalhando, e aí ele lembrou que tinha uma filha, porque me viu cantando”, falou a cantora. “Como foi o encontro?”, perguntei. “Lastimável”, respondeu explicando: “Um dia fui cantar na Alemanha e ele apareceu. Subiu no palco bêbado, é claro, e disse: ‘Você é minha filha!’ Na hora, eu não o reconheci. Depois, olhei bem para os olhos dele e como os conhecia de fotografia me lembrei. Aí eu disse para ele: Não é um pouco tarde para você se lembrar disto? Saia daqui! Depois, ele tentou se comunicar mais uma vez comigo, mas eu não quis”. “Você nunca se arrependeu?”, perguntei. “Não, de jeito nenhum. Ele só trouxe tristeza para minha mãe e para meu irmão também.”

COMEÇO DE CARREIRA

Com 56 anos de carreira, Chretien começou a ganhar dinheiro logo depois de realizar apresentações amadoras em Roterdã e Amsterdã. “Era mais uma coisa para universitários. Ganhei uns prêmios e tal, mas ainda não tinha dinheiro”, disse lembrando que o primeiro “cachezinho” foi ganho quando tinha 18 anos, em um bar de Roterdã. O dono do local a ouviu cantar, em casa, e a convidou para integrar um trio. Aceitou. A primeira música que cantou ganhando dinheiro? “My Funny Valentine”, composta em 1937 por Richard Rodgers (1902-1979) e Lorenz Hart (1895-1943). A canção virou um dos mais conhecidos standard de jazz e foi gravada à exaustão aparecendo em mais de 1.300 discos, interpretada por mais de 600 artistas. “Naquela época eu era bem moça, nunca tinham me visto e nem ouvido falar de mim, então foi bom. Causei”, disse antes de responder minha pergunta: “Ajudava ser bonita na época?” “Olha, eu não posso responder. Acho que cantava bem, mas sempre deixo os outros julgarem isso. Agora, bonitinha eu era”, disse rindo a holandesa que conserva a beleza acrescida de um belo par de olhos azuis.

DE RECEPCIONISTA A MÃE E CANTORA

“Como eu falava bem francês, inglês, italiano, alemão e espanhol, trabalhei bastante na Espanha, desde 16 anos, mas não como cantora. Trabalhava em hotéis, como recepcionista. Fiz este tipo de trabalho até conhecer o Edegar”, disse a cantora referindo-se ao baterista brasileiro Edegar Teixeira (1926-2008), morto em decorrência de um acidente vascular cerebral.

O velho Teixeira, pai do saxofonista Wilson e do baterista Cuca foi uma das pessoas mais calmas, tolerantes e educadas que conheci. “Um gentleman”, completou a viúva. Ambos se conheceram em Roterdã. O baterista estava há cerca de oito anos tocando pela Europa. Um dia, o músico estava numa sorveteria e viu Chretien, recém chegada da Espanha, “bem morena e bonitona”. Ele acabara de empunhar um sorvete. “Quando me viu, deixou a bola de sorvete inteirinha cair no chão”, contou rindo.

Naquele momento de desperdício, não economizaram olhares cruzados. Dias depois, a cantora foi convidada por uma amiga para participar de uma festa de noivado onde uma banda havia sido contratada para tocar músicas sul-americanas. Chretien pediu autorização para a mãe, mesmo tendo 19 anos, e foi. “Bicho, naquela época eu podia trabalhar, sair, mas tinha horário para chegar em casa”, contou. Chegando na festa, embalada pelo som de samba, chá-chá-chá, mambo e rumba, avistou o baterista da banda e comentou com a amiga: “Que vergonha, é o cara do sorvete!”. Em um dos intervalos, o músico aproximou-se e a convidou, numa mistura de inglês com espanhol, para um café no dia seguinte, ao que ela rebateu de pronto: “Ok, mas você vai pagar?”. “Tudo certo”, ele respondeu.

Namoraram durante três meses. Edegar deixou a namorada na Holanda e foi para a Bélgica, trabalhar em Antuérpia. A holandesa não aguentou e foi encontrá-lo semanas depois. Lá engravidou antes de irem juntos para Olborgo, no norte da Dinamarca, com o consentimento da mãe que a ajudou. Mas a barriga não. “Comecei a ter muitas dores e espasmos. Como não tinha plano de saúde, o médico disse que seria melhor eu voltar para casa, na Holanda”, falou acrescentando ainda que questionou o doutor: “Vou deixar meu marido aqui?”. “Se ele gosta de você, ele vai atrás”, disse o médico que acertou em cheio. No fim do contrato, Teixeira retornou para a Holanda encontrando-a com cinco meses de gravidez e se casaram. Apareceu um trabalho e ele teve de retornar para a Dinamarca, desta vez para a capital, Copenhague. Quando voltou, o filho Wilson já tinha três meses.

Juntos, mais o filho a tiracolo, retornaram para a Dinamarca. Passado um tempo, estavam vivendo de uma pequena reserva de dinheiro, em uma pensão em Copenhague. Os trabalhos rarearam. Teixeira contava apenas com o som de sua bateria, do sax brasileiro de Wilson Ribeiro e do piano argentino de Jorge Calandrelli (hoje, requisitadíssimo arranjador de cordas que já escreveu para estrelas como Barbra Streisand, Andrea Bocelli, Tony Bennett e Celine Dion, entre outros). O trio precisava de uma cantora. Arrumaram uma muito linda, Kate Restrup, mas cantava pouco. Em um dos ensaios, Chretien (que só cantava em casa) foi solicitada a mostrar como era a melodia de “Manhã de Carnaval”, de Antônio Maria (1921-1964) e Luiz Bonfá (1922-2001). A holandesa soltou a voz e automaticamente abocanhou seu lugar no grupo, garantido pelo espanto dos olhos arregalados do pianista. “O Calandrelli disse que se eu não cantasse no lugar da Restrup, ele parava no som”, confirmou Chretien, que ainda teve de convencer o marido a aceitar, pois ele relutou em tê-la profissionalmente no grupo. “Bicho, aquilo tinha caído no meu colo, com o aval de um grande pianista. Eu sempre quis cantar, como eu poderia desprezar aquela chance? Falei para Edegar: Escuta, este negócio de macho man não funciona aqui na Europa. Eu vou cantar sim.”, e o convenceu.

MODERN TROPICAL QUINTET

Tudo certo. Chretien, com 22 anos, estava realizando seu grande sonho e pela primeira vez “atacava” com o marido, fundando o Modern Tropical Quintet. O grupo ficou completo com a inserção de mais um membro, o baixista Waldemar Ribeiro (irmão do saxofonista Wilson Ribeiro), que estava na Itália. Ensaiaram durante 15 dias e foram contratados depois de uma audição para se apresentarem em Copenhague. Tinha de tudo no repertório, música brasileira e americana, sendo que às vezes colocavam uma francesa ou uma alemã, dependendo de onde iam trabalhar, para agradar o público local. Viajaram por toda a Europa durante quatro anos. Até que Teixeira resolveu visitar os pais no Brasil, pois não os via há quase dez anos.

BRASIL

Chegaram no Brasil, a passeio. Era dia 24 de dezembro de 1964, quando aportaram em Santos, vindos de navio. Na bagagem só pertences do filho, então com quatro anos, e os de mão, já que móveis e utensílios não tinham, pois viviam tocando e se hospedando em pensões da Europa. “Quando a grana era boa, ficávamos em hotéis”, lembrou Chretien.

Subiram a serra para São Paulo e foram para a casa dos pais de Teixeira, no bairro da Mooca, para nunca mais voltarem à Europa. Só a passeio. Qual foi sua impressão quando chegou?, perguntei. “Caí em prantos. Bicho, nunca tinha visto tanta desorganização e pobreza”, disse a artista afirmando que não fora iludida pelo marido. “Ele nunca disse que eram ricos, mas eu não acreditava que era tanta pobreza assim”, falou acrescentando que todos trabalhavam na casa dos sogros. “Meu sogro era vigia noturno das Máquinas Piratininga. Minha sogra fazia das tripas coração, costurando e servindo a casa. Minhas duas cunhadas trabalhavam, uma era ajudante de escritório nas Máquinas Piratininga e a outra era modista formada, mas quase não tinham o que comer. Quer dizer tinham, mas…”, revelou mostrando descontentamento.

PRIMEIROS TRABALHOS

Depois de 15 dias no país, foram contratados para tocarem, segundo Chretien, na “boate mais chique da cidade”, a Le Club, que ficava na Galeria Metrópole e promovia altas “jam sessions”. No andar de cima da galeria, do mesmo dono, havia, o Man´s Club, mas só para homens. Era 1965, tocavam a noite toda, das 21h às 04h, de segunda a sábado. “Ganhavam bem?”, perguntei. “No começo, ganhávamos cinco mil cruzeiros, mas depois de um mês, devido ao sucesso que fizemos, estávamos ganhando 15 mil cada um, enquanto o Johnny Alf (1929-2010) continuava a receber 5 mil no piano bar, uma vergonha”, disse a cantora que soube impor o valor do grupo que já arrasava em arranjos vocais ousados e modernos para a época.

CARTEIRA DA ORDEM

“Tenho a carteira da Ordem dos Músicos desde 1967 e nunca me beneficiou em nada. Aqui no Brasil, você precisa pagar para trabalhar. Eu paguei minha carteira. Eu comprei minha carteira. Não leio uma nota musical e quando você faz a prova tem que ir lá tocar ou cantar, mas lendo. Eu fui e não consegui. Disseram então: ‘Você larga tanto aqui (referindo-se ao dinheiro) que nós vamos dar a carteira pra você’. Todos nós tínhamos que ter a carteira, sem ela não se trabalhava”, disse a artista, autodidata, dona da carteira datada de 4 de dezembro de 1967, de número C1025, uma das primeiras de cantora.

Carteira da Ordem dos Músicos da cantora Sara Chretien (Foto: Carlos Bozzo Junior)

BAILES

Depois disso, o grupo aceitou um convite para tocar em Barretos. Lá, faturou 350 mil cruzeiros para realizar um único evento. Daí para frente “começou a chover pedido de bailes”, disse Sara que tocou com o Modern Tropical Quintet em praticamente todos os clubes de São Paulo para turmas de calouros e formandos de várias universidades. “USP, FAAP, Mackenzie, um monte, bicho”, explicou a artista que chegou a atender 35 pedidos de apresentações por mês, entre bailes e almoços. “No Clube Pinheiros, tinha semanas que a gente não retirava o material de lá”, falou. Mudou-se com Edegar para o bairro da Pompéia. Depois de algum tempo, saiu do aluguel e comprou, com o dinheiro da música, uma casa.

DESAVENÇAS

Além de revolucionar o mercado em termos de música, melhorando o nível dos grupos de baile por apresentar arranjos arrojados, modernos e soar como uma orquestra com apenas cinco integrantes, o grupo funcionava como uma espécie de cooperativa, onde todos ganhavam igual. “Bicho, o Pocho (como era conhecido o maestro Rubens Perez, que trabalhou e gravou no Brasil no fim dos anos 1950 e 1960, além de ter sido um dos diretores da gravadora RGE) ficou bravo e disse que era fácil fazer o que fazíamos porque éramos só cinco e não tínhamos que sustentar, como ele, as 30 figuras de sua orquestra”, disse a cantora que bateu boca com o maestro alegando: “Dividimos tudo e não damos merreca para empregados ficando com a maior parte, como você faz”, contou.

Em 1968, receberam um convite do compositor Sérgio Ricardo para se apresentarem ao seu lado no IV Festival da MPB da Record, interpretando “Dia da Graça”. O cantor fora desclassificado no festival anterior por ter quebrado e arremessado seu violão no público, quando foi impedido pelas vaias de cantar “Beto Bom de Bola”, protagonizando uma das cenas mais famosas dos festivais. “Bicho, o cara foi até minha casa e foi muito simpático quando pediu para participarmos apoiando ele. Compramos roupas com nosso dinheiro. Fizemos o arranjo. Ensaiamos e classificamos a música dele, tudo sem ganharmos nada. Depois da apresentação, ele nos deixou plantados no palco e foi embora. Até hoje nunca agradeceu, chamou para um café ou um jantarzinho”, contou dizendo ainda que não se lembra do momento em que o cantor ficou mudo diante do microfone, na parte da letra que teve trechos previamente censurados, embora tivessem sido cantados pelo grupo e pelo público. “Considera-se que, neste momento, dado o ocorrido no festival anterior, o Sergio Ricardo fez as pazes com o público, você lembra disto?”, perguntei para a cantora na tentativa de ativar sua ótima memória. “Com o público pode ter feito, mas com os músicos não”, respondeu secamente.

DISCOS

Em 1966, o Modern Tropical Quintet gravou um LP (raridade vendida a R$ 600 pela internet) que, segundo a cantora, foi gravado em apenas oito horas. “Contávamos, atacávamos e gravávamos de prima, mas nunca recebemos um centavo por isso.” Depois, gravaram um compacto com músicas de Mário Albanese e Cyro Pereira (1929-2011), ambos inventores do ritmo brasileiro Jequibau. O compacto chamava-se “ The Modern Tropical Quintet – Gamboa”. “O Cyro pediu para gravarmos isso e para eu levar para a Europa, mas não deu em nada”, disse a cantora.

O grupo acabou com a morte de seus integrantes. “O Wilson morreu antes do irmão, Waldemar, em 2011. O Edegar também. Sobrou só eu e o Plínio, que foi o pianista depois do Calandrelli. Aí acabou”, falou a cantora.

Em 1990, a artista gravou “Sara Voz”, um LP solo, excelente. “O que aconteceu com este disco? perguntei. “Nada. Escuta, bicho, você é jornalista de música e não percebeu que, hoje, tudo que é bom aqui no Brasil, especialmente em música, eles jogam no lixo?”, justificou a cantora com a experiência de quem trabalhou em várias casas noturnas da cidade e hoje não tem local para soltar a voz.

“Antes tinha bastante lugar para cantar. Eu mesma trabalhei em várias casas. Na Baiúca, 150 Night Club e inaugurei o Palladium, cantando música de verdade, com repertório jazzístico. Agora, não tem mais nada, acabou”, falou a artista afirmando que é comum “gente com grana, como engenheiros, levar claque de amigos e roubar o lugar do músico tocando de graça, achando que também são artistas. Isto deveria ser proibido”, argumentou.

“Mas o Brasil ainda tem cantores”, afirmei. A resposta: “Quem? A Ivete Sangalo? Ela é uma ótima performer, mas não canta. Ela pode ser até musical, mas não aplica esta musicalidade cantando. Aquela Cláudia Leitte, então, é o fim da profissão. Quem cantava já morreu. Elis Regina (1945-1982), Emílio Santiago (1946-2013), Dick Farney (1921-1987) e Pery Ribeiro (1937-2012), esses, sim, cantavam”, disse Chretien, que teve sempre como referências as geniais Sarah Vaughan (1924-1990), Carmen McRae (1920-1994), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Dianne Reeves.

CAVALO SELADO

“Bicho, se tem uma coisa engraçada que aconteceu em minha carreira foi por volta de 1973. Os caras do grupo Secos e Molhados pediram emprego para gente, porque tínhamos com o grupo Três do Rio a Promosom, que vendia shows e bailes. Nós rimos na cara deles e falamos que aquela porcaria cheia de peninhas não seria representada por nós. Fazíamos música de verdade. Burrice, burrice porque os caras foram um sucesso e a gente podia ter se enchido de dinheiro”, disse rindo.

VOLTA PARA A EUROPA

“Nunca voltei para morar na Europa por causa do povo brasileiro. Aqui fiz muitas amizades, boas e sinceras. Na Europa, isto não rola fácil. Fui várias vezes pra Holanda, a passeio, mas acho que eu não me daria bem lá agora…E olha que aqui está feio hein, bicho? Tenho que trancar tudo, a casa inteira. Tenho medo quando meus filhos não estão. Fico sozinha com o cachorro que não faz mais nada, não morde ninguém. Ele já tem 15 anos, coitadinho”, disse a cantora referindo-se ao negro, mas com os pelos do focinho esbranquiçados pelo tempo, Elvin Jones, um simpático cão vira lata, assim batizado em homenagem ao baterista de jazz.

SOTAQUE

Até hoje, Chretien sustenta um forte sotaque ao expor em camadas um pouco da sonoridade do inglês, francês, italiano, alemão e espanhol, em cima do português. O uso de gírias antigas e palavrões são constantes no linguajar da artista e trazem, ao contrário do reles xingamento que tem por destino a ofensa, palavras proferidas de maneira engraçada, pronunciadas quase em letras de forma. Quando finalizei a entrevista perguntando se, apesar de tudo, ela ainda gostava de cantar, respondeu: “Para c…, bicho!”