Será que a casa caiu?

Por Carlos Bozzo Junior
BenjamimTaubkin
O músico BenjamimTaubkin (Foto : Carlos Bozzo Junior)

Estabelecido na Rua Padre Cerda, 25, no Alto de Pinheiros, há mais de três anos (completaria quatro, em março próximo) o pequeno e acolhedor centro cultural Casa do Núcleo suspende suas atividades por quatro meses. Depois disso, corre o risco de fechar suas portas definitivamente.

Com uma média de vinte eventos por mês, entre shows, seminários, palestras, encontros e oficinas, a Casa ofereceu mais de mil atividades sendo várias delas gratuitas. Em suas paredes ecoaram músicas de diversos matizes, de diferentes partes do mundo e do país. Passaram por lá artistas da Coréia do Sul, Marrocos, Israel, Espanha, Colômbia, Argentina, Estados Unidos e França, entre outros lugares.

O espaço, que comporta cerca de 70 pessoas sentadas e 100 em pé, chegava a acolher em suas festas – principalmente as juninas- quase trezentas pessoas. Contudo, nunca precisou de seguranças ou foi palco de algum tipo de “treta”, embora comercializasse álcool.

“Nosso desejo sempre foi compartilhar algum tipo de conhecimento e promover a boa convivência com as pessoas, de maneira civilizada”, disse Benjamim Taubkin, 58, músico e um dos idealizadores do projeto, em entrevista concedida ao Música em Letras.

“Na hora das apresentações ninguém falava. Nunca solicitamos ao público que fizesse silêncio ou desligasse celulares. Talvez, por ser um espaço pequeno, com vocação e objetivos claros, as pessoas que frequentavam a Casa compartilhavam isto naturalmente. Nunca houve conflito com artistas ou público”, afirmou Taubkin.

De fato, a atmosfera do local que reunia gente de zero a 90 anos, com um palco bem próximo ao público, almofadas e sofás confortáveis, loja de disco, bar e restaurante vegetariano, deixava claro que ali era um universo que por princípio tinha respeito ao próximo e à arte.

Mas por que um oásis cultural como este acaba?

Segundo Taubkin, que não se arrepende de nada e não teria feito nada diferente do que fez, “é preciso dar um tempo”.

A casa é alugada ao custo de R$ 6 mil por mês. “Não tenho como parar por um tempo e manter o aluguel. Não dá para termos férias remuneradas.” O pianista acrescentou ainda que está precisando “de um tempo para respirar e organizar as coisas. Não posso seguir nesse fluxo de trabalho. Não é saudável e não é produtivo”, explicou.

Tudo parece fazer sentido já que o músico viaja uma média de quatro meses por ano, chegando a sair do país mais de 12 vezes. Na última de suas ausências, em uma tacada só, foi à Bolívia, fez três shows em cidades diferentes, La Paz, Cochabamba e Tarija. Retornou ao Brasil e embarcou direto do aeroporto para a Espanha, “sem ir para casa”. Ensaiou, montou e realizou um projeto/show durante cinco dias de trabalho ininterrupto.  Acabando o espetáculo, realizado perto de Barcelona, foi de carro até Madri numa viagem de sete horas. Lá embarcou em um voo para Salvador, na Bahia, onde tocou parte de um concerto de piano solo. No dia seguinte, viajou novamente e apresentou-se em Goiás. Ufa…

“Tudo isso realizando projetos diferentes e muitas vezes indo dormir às quatro da manhã para pegar um voo às sete”, disse explicando que em meio a esta correria cuida da saúde apenas com alimentação vegetariana e não toma remédio de espécie alguma.Qual o segredo? “Primeiro não sou junk e trabalho contente, pois faço a música que quero fazer e nas condições que quero. Isto é importante”, revela.

Entretanto, a maratona é desgastante. Mesmo fora do país tinha de resolver assuntos referentes à Casa. “Tem conta para pagar, programação para resolver, disco que vai sair, projeto que tem que fazer andar, proposta para melhorar…é isso o tempo todo. É um movimento constante”, falou.

Na última semana de dezembro, ao parar, descobriu que tinha passado do limite. O gatilho se deu quando percebeu que estava ficando fora de órbita. “Estava me sentindo longe de mim mesmo”, falou.

Decidido a parar, postou em sua página da rede social seu desejo. Imediatamente foi acolhido por uma comoção que assolou várias pessoas, simpatizantes e fãs do espaço.

Embora algumas delas estejam se mobilizando, oferecendo ajuda, inclusive financeira, para que o espaço não feche, o último show no local foi realizado em primeiro de fevereiro, com o grupo pernambucano Bongar.

“Para mim ficou uma resolução clara, sem dor, sabe?”, disse Taubkin. Espera-se, contudo, que este tipo de casa balance, mas nunca caia.